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Tópico da PONTO DE RUA

Rua do Resende, Lapa
Rio de Janeiro - RJ Rio de Janeiro - RJ


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Entediado, peguei o fusca e saí sobrevoando baixo o negrume do asfalto das ruas noturnas. Um problema que vem crescendo em mim, o tédio. Quase nada me parece novidade, poucas situações me despertam a adrenalina que nasce do mistério. Certa vez, um velhinho que papeou comigo numa termas me disse que o sexo perde parte do seu magnetismo quando perde o mistério. Caetano era o nome do senhor, não deve estar mais no plano físico, mas nunca me esqueci da sentença. Talvez, em busca desse mistério, eu me aventure pelos pontos de rua, onde ainda reina a adrenalina e o inesperado. Há quem sinta temor de maiores aventuras, há quem prefira o sexo delivery ou escolha a comodidade de frequentar lanchonetes de sexo. Aprecio a penumbra urbana, é onde o coração dá saltos, é onde o sangue bomba mais forte. Sobre as calçadas pouco iluminadas, a vida pulsa. O cd player do fusquinha fazia vazar a voz de Pitty das caixas de som.

PULSOS

Foi uma semana de estresses, de decisões, de conflitos. Eu precisava liberar a minha mente das tensões inúteis. Os cenários iluminados pelas pálidas lâmpadas de vapor de mercúrio faziam a cidade parecer um imenso velório. Eu e Herbie cortávamos o vento, cortávamos o tempo, rasgávamos o espaço. Eu cantava esganiçado...

“Tenta achar que não é assim tão mau
Exercita a paciência
Guarda os pulsos pro final
Saída de emergência...”


Existem muitos pontos de rua pelo Rio, poucos valem o esforço, menos ainda são os que guardam boas surpresas. A rua é um risco porque a rua é a vida. Segui retas, subi ladeiras, dobrei esquinas e decidi passar pela rua do Rezende. A peculiaridade deste local é que reina ali uma democracia de gêneros, putas atuando próximas a travestis, mulheres e anseios femininos dividindo uma frágil fronteira. Estaciono o carro na Gomes Freire e caminho em direção ao boteco na esquina da Men de Sá com o porto das meretrizes. Deserta, a Gomes Freire deserta e transpirando fantasmas da Lapa antiga. Não digo que não sinto receio nesses momentos, sinto. Perigos e marginais rondam desertos e escuridões, mas sigo em frente. Piso firme com minhas botas, faço cara de mau e sigo.

O boteco, com meia porta arriada, servia como um farol para almas velhas e penadas como eu. Pedi uma dose de Salinas, a cachaça rompeu minha traqueia como um grupo de Bandeirantes abrindo uma picada no mato. Na segunda dose, minhas pupilas se dilataram, o mundo me pareceu um facho forte de luz. Na terceira dose, é quando ela surge, quando qualquer problema é incinerado pelo líquido rascante que desliza pela garganta, a Felicidade adentra o bar como uma cafetina que se anuncia dona de tudo.

Decido dar uma volta no quarteirão, iniciando novamente pela Gomes Freire e entrando pelo outro lada da rua do Rezende. Atravesso grupos de travestis, esbarro com travestis solitários, sou chamado de gostoso, alcanço a rua do Rezende, avisto o Hotel Estadual e vejo a colônia de mulheres mundanas que buscam o dinheiro da solidão como um projeto de ilha paradisíaca. Ficam em torno do Hotel Andorinha, o pouso preferido de suas revoadas.

Acredite, forista sem fé. Meu coração acelerou, como se revivesse uma paixão de adolescente, quando vi a melhor de todas. Betânia cumpria expediente. Acelerei o passo para evitar perdê-la de vista. Ela sorriu ao me ver, aquilo quase me emocionou. Trocamos um selinho e entramos de mãos dadas no hotel.

O que houve dentro do quarto, estimado forista? Foi amor, amor. E como não quero que você conheça os segredos tão preciosos de uma conjunção tão rara, encerro por aqui com a ponta de um conselho: vá conhecer Betânia.

Como dizem que se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia; indico Betânia porque sei que você terá que pagar. A felicidade também tem seu preço. Reverência
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Brand 27/05/2021 23:14

"sou chamado de gostoso" kkkkk 🤣🤣🤣 Saudades ali daquela area, ja nao passo la ha um bommm tempo... até a Cinelandia anda deserta, imagina ali, infelizmente...

membro, Brand, Predator, Jucabar, Yojiro, jjdurao, schusk curtiram esse relato.
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(Continuação do relato anterior)

Eu me aventurei muito pegando meninas da pista. Certa vez, em Copacabana, fiz uma colheita inesquecível na Av. Atlântica, uma branquinha linda, deliciosa, mineira e iniciante. Tímida, a primeira frase que ela me disse é que queria aprender a ser safada. Quase tive uma ejaculação precoce. Essa mineira figura no pavilhão nobre das minhas memórias. Coisas do século passado. Era possível encontrar pérolas no asfalto. Parei com isso quando sofri uma tentativa de golpe, tinha começado a ficar arriscado e preferi interromper a prática.

A garota de pista parece estar em extinção em terras cariocas. Até a primeira década deste século era possível encontrar diamantes brutos até na rua que ladeia o Cemitério do Caju. Foi onde encontrei Gisa, outra fêmea memorável. Pelo que soube, as mariposas não mais sobrevoam a região.

Afeiçoado forista, é desconfortável perceber a passagem do tempo, a extinção de lugares que formaram a nossa própria história, a sensação de que você se perdeu muitas vezes, de que não saboreou como devia o cardápio que o Destino ofereceu. O Destino é um maitre, cabe a nós escolher o prato disponível. Há quem escolha um bom vinho e uma boa comida, mas existem os que deixam o restaurante e vão pedir um Big Mac com coca-cola zero na lanchonete da esquina. A idade que avança faz emergir a consciência do que se ganhou e do que se perdeu. O que fazer com isso? Ainda não sei... Talvez, dependa da energia que ainda restou nesta altura da jornada.

Como eu disse, gosto da Lapa à noite. Não para me juntar a multidão frenética e embriagada que se mistura nos bares, gosto da Lapa pelo peso do passado que sinto ali, pela vibração de todos os libertinos que andaram e se apaixonaram pelas putas dos inferninhos de outras épocas. Gosto de respirar aquela atmosfera noturna das histórias que pairam sob os arcos. A Lapa atravessou os anos entre o brilho e a decadência, mas insiste em sua vocação maior, a luxúria.

Saí do Bar Brasil tomado pelo êxtase do ébrio. Meu percurso estava traçado, a rua do Rezende, no trecho entre a Gomes Freire e a Men de Sá. Há um hotel que as meninas usam como ponto e como base de atendimento. Na verdade há dois hotéis, mas um deles serve mais aos travestis. É inexplicável como em alguns momentos sentimos uma sensação de extrema euforia, como se ganhássemos a súbita convicção de que a vida é magnífica, seja como for. É provável que seja uma ilusão dos neurônios, mas é uma ilusão que experimentei e que parece sólida quando acontece. Porém, como disse Marx, tudo o que é sólido desmancha no ar. Ilusões não duram muito, o melhor é aproveitá-las quando se manifestam.

Com a visão meio míope, alcancei o local desejado. Decidi parar no boteco da esquina e pedir uma cerveja para poder contemplar o movimento da área. A mesma bebida que cria a fantasia da felicidade pode, em seguida, nos lançar no fosso da depressão. Foi o que começou a acontecer comigo. Reagi pedindo uma dose da cachaça Salinas. Não, não sou um alcoólatra, estimado forista. Sou um boêmio ocasional.

Desta vez, não foi uma miragem que se apresentou aos meus olhos. Uma mulher de pele alvíssima; cabelos negros compridos escorrendo em cascata pelos ombros, pelas costas; uns olhos repuxados de felina; seios médios; pernas de bailarina; usando minissaia e um colã decotado. Acredite, forista sem fé, uma menina bonita. Não devia ter mais do que vinte e três anos de idade. Fiquei observando seus gestos, pasmo ao supor que aquela cigana linda pudesse ser uma mariposa em atividade. Sim, ela era.

A beleza sempre me intimida, precisei reunir coragem para avançar os passos e me aproximar. Bêbado fica mais fácil para falar e mais difícil para trepar. Ousei e fui ao encontro da garota.

— Eu tinha que vir aqui perguntar seu nome — não me censure pela falta de originalidade, estimado forista, metade dos meus neurônios estavam anestesiados pelo efeito da cachaça.

— Betânia. E o seu, amor?

Nunca havia esbarrado com uma puta chamada Betânia. A vida jamais deixa de nos reservar ineditismos. Por favor, não me condenem por usar a palavra puta, eu considero um vocábulo bonito, forte e só são dignas da profissão aquelas que aceitam o título.

— Dante. Com faço para ficar com você?

Uma pechincha meus amigos, oitenta reais e não falou de tempo.

Entramos no hotel, peguei um quarto e subimos.

Quarto padrão, sem luxo, mas confortável e funcional. Betânia tira a roupa, marcha em minha direção e me tasca um beijo. Diz que eu sou cheiroso, bonito. Meu machucado coração conversou com meu combalido pênis e foi possível um sinal de ereção neste instante. Fiquei de pé na margem da cama e Betânia de quatro iniciou seu boquete transcendental. Talvez, a bebida tenha me deixado mais sensível, mas a química estava perfeita. Peço para que ela se deite, mergulho minha língua dormente em sua vagina, a menina geme, agarra meus cabelos, espreme a minha cabeça entre as suas coxas de brancura imaculada. Pela primeira vez, quase gozei chupando uma mulher.

Pedi que ela ficasse de quatro, que é a posição preferencial para homens da terceira idade. Aquela bunda albina, sem qualquer mancha ou sinal, de tez nívea e puríssima, senti vontade de ajoelhar, rezar e gritar amém. De tudo isso, apenas ajoelhei e meti com alguma dificuldade, pois a pressão hidráulica do meu abatido membro estava prejudicada pela mistura química que ingeri nos botequins. A cada metida, Betânia se empinava mais, gemia mais, lançava os cabelos para as costas, eu os puxava de leve. Não foi possível resistir por muitos segundos, ejaculei a alma. Caí duro naquele colchão promíscuo, respiração ofegante. Betânia me contemplava com olhos brilhantes. Perdoe-me pelo ensejo piegas, querido companheiro de aventuras, mas eu pronunciei o que jamais deve ser pronunciado.

— Eu poderia me apaixonar por você — revelei hipnotizado pelos olhos da Pombajira.

Betânia sorriu com o canto dos lábios, se vestiu, estendeu a mão para receber o pagamento e me deixou. Não me lembro com clareza, mas creio que adormeci por uns minutos e quando acordei tive a sensação de que tudo tinha sido um sonho. Deixei o hotel, ganhei as ruas e peguei um táxi. Sob o céu cinza da madrugada silenciosa e deserta, mais uma página estava completa. Que venha a próxima... Yes
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Yojiro 08/03/2021 22:26

Dante lendário! Um duelista exemplar pois não tem tempo ruim para combate!

Predator 08/03/2021 12:31

Algumas vezes ouvia uma piada que comparava alguns resultados insatisfatórios, sobretudo os realizados com certa lassidão, com o sexo na terceira idade, pois se dizia que tinha sido feito “com muito suor e pouco resultado....”
Dante com as suas belíssimas experiências estilosamente relatadas aqui, motiva a todos nós a atingir a terceira idade com o eterno vigor da puberdade.
Penso que toda a sua contribuição nesse fórum poderia ser reconhecida concedendo-lhe o título de “imortal”.
Vida longa ao nosso mestre Dante!

melzas 08/03/2021 09:19

Isso que é vida! Tá de parabéns, Dante. Quando eu ficar mais velho, pretendo levar a vida da mesma forma =)

Fazzo Casanova 08/03/2021 06:01

Mestre Dante nos brinda com uma belíssima e envolvente narrativa, ele é com um "vigilante mascarado" da vida libertina, que cruza a cidade, a espreita de belos e diferenciados momentos de pura volúpia!! Como sempre, reverencio meu mestre!!

Razorblade 08/03/2021 01:38

Chegou nem a pegar o telefone da musa?

Razorblade 08/03/2021 01:38

Dante, como sempre, acho que sou seu fã numero 1.
A forma como expõe suas experiências são únicas e poderia realmente virar um livro. Me incentiva sempre a buscar mais conhecimento no mundo literário!

Rabanete 07/03/2021 23:57

Texto hipnotizante, admiro sua maneira de transformar um relato boêmio, que por via de regra seria chulo e puramente carnal, em um drama noir, de um homem que enfrenta a cidade noturna. Concluo que tenho muito a aprender kkkk tanto sobre a vida boêmia, quanto sobre escrita mesmo kkkk

membro, Alucard, Rabanete, melzas, Yojiro, Razorblade, Fazzo Casanova, Lobo Solitário, Predator, Michael Corleone, Alicia Ferrari, schusk, jjdurao curtiram esse relato.
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Um antigo amigo, já falecido, filosofava afirmando que o sexo é mais intenso na juventude, porque nesse período da vida a luxúria ainda guarda a força do mistério. Cito o amigo falecido por um motivo, na terceira idade o libertino vive mais entre fantasmas do que entre os vivos. Eu pensava sobre isso enquanto o táxi me conduzia à lendária Vila Mimosa. Sim, atento forista, o Sucatão está fora desta história, pois entrou em processo de renovação de frota, mas logo voltará.

A temperatura amena, o céu cinza, chuviscos caiam sobre os paralelepípedos da rua Sotero Reis quando arrisquei os primeiros passos com as minhas botas importadas do Rio Grande do Sul. Havia silêncio e sombras sobre tudo, lembrando-me um cenário de filme noir. Não me intimidei e prossegui na minha marcha em direção aquela aldeia de mulheres degeneradas; a ilha das amazonas destemidas, que todos os dias enfrentam e vencem a selvagem fome dos homens.

A Vila estava vazia, quase deserta. As mulheres me observavam com olhos de curiosidade. Uma gordinha me puxou e declamou a frase hedionda: “vamos foder gostoso”. Pobre menina, talvez ainda não saiba que qualquer relação que começa com essa frase é a profecia do apocalipse.

Rodei por uma três vezes os corredores fétidos, percorri a rua novamente. Nada. Resolvi ir embora, mas antes passei em frente à mitológica Mosaico, vi algumas meninas interessantes, mas não era o clima que eu buscava para aquela noite.

Segui pela rua Ceará até a Francisco Eugênio. Nunca havia ousado fazer este trajeto a pé, à noite. Fiz. Logo de cara topei com alguns moradores de rua que me olharam como seu eu fosse uma peça de alcatra temperada, exibida em um rodízio, e pronta para ser fatiada. Acelerei o passo com mais agilidade do que o Usain Bolt. Alcancei a área das meninas, tive a impressão de ser o único pedestre e por isso, talvez, eu não tenha despertado o interesse delas. Fiz sinal para um táxi que passava e pedi ao motorista que me levasse para a Lapa.

Lapa... A Lapa não é só um reduto boêmio do Rio, com aquele trecho de luzes de neon, bares inflamados, promiscuidade impudica. Não, a Lapa é o museu dos libertinos. Quantos pervertidos já não pisaram ali? Quantos boêmios? Quantas putas? Quantos cafetões? A Lapa, com seus arcos imponentes, é um castelo assombrado por milhares de orgasmos do passado e do presente. Apurem os ouvidos, é possível ouvir os gritos, os sussurros, as mulheres e homens de outro século. A luxúria de todos os tempos jaz na Lapa.

— O que você foi fazer na Lapa, velho Dante? — Perguntaria o forista sempre afeito ao inconveniente da curiosidade.

Minha intenção foi me distrair e verificar se encontraria alguma garota disponível no ponto da Rua do Rezende, onde travestis se misturam às vaginas noturnas. Antes, entrei no Bar Brasil, eu precisava saborear o chope do lugar. Compreenda, afeiçoado forista, todo libertino é uma ilha que consegue potencializar os prazeres cotidianos através da solidão. Bebi o ouro líquido como se bebesse pela primeira vez, o álcool descia pela minha garganta como se carregasse uma rede de pequenos ganchos sadomasoquistas. Pedi outro, mais outro e no terceiro chope comecei a vislumbrar aquela linda mulher vaporosa e fugidia: a felicidade.

Por que as pessoas compram livros de autoajuda em busca da felicidade? A felicidade cabe dentro de uma tulipa. Acredite, forista sem fé.

(Continua... precisei interromper)
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Da Lua 17/02/2021 08:32

grande confrade.

Dante, você dar aula particular?

como você mesmo diz, morar na tijuca,e rodar no batmovel ajuda alguma coisa?

você é um dos poucos, que vejo receber curtidas de ficha rosa nos seus tds

sem contar, o enriquecimento dos relatos, com uns putas vernáculos, da porra sô!!!

com certeza e da área da decania de línguas ou letras

pqp, quando crescer quero ser assim

valeu, seu seguidor, modesto na arte da escrita

rola nelas, já, eu apoio a ideia

Yojiro 14/02/2021 22:06

Profecia do apocalipse... melhor definição impossível...

Fazzo Casanova 14/02/2021 21:40

Por isso Dante é nosso mestre Jedi, pura sabedoria!! Mas essa de interromper o relato!!! E olha que eu já li centenas de relatos do Arena, KKKK.

Alicia Ferrari 14/02/2021 20:23

Brand vou roubar a frase Kkkkjkk já ja vai estar no meu status Kkkkjk tô sem criatividade mesmo....domingo monótono, sem sexo...ai é brabo kkkkk vou bancar a intelectual

Brand 14/02/2021 20:17

Alicia se aproveitando da frase do Dante para emborcar kkkkk

Alicia Ferrari 14/02/2021 20:15

"Por que as pessoas compram livros de autoajuda para buscarem a felicidade? A felicidade cabe dentro de uma tulipa. Acredite, forista sem fé." Putz melhor frase que li nesses últimos tempos...kkkkk aliás tenho pavor desses livros Kkkk

Alicia Ferrari, membro, Fazzo Casanova, melzas, schusk, badrobot, Eletriom, Rabanete curtiram esse relato.
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* INTRODUÇÃO FILOSÓFICA AO TD: SOBRE PIOLHO DE BORDEL VERSUS LIBERTINO

Há quem goste de se unir aos piolhos de bordel. Passam-se anos e escolhem o picareta do momento. E o que é um piolho? É uma sub-raça, é aquele que cria intrigas, tem apreço por fofocas, é desleal, omisso, promove mentiras, alguns guardam conflitos de identidade de gênero, é o pedinte de fiado, o caloteiro. Vive sob o verniz de bom sujeito, exibindo a moralidade de outdoor, é isso que torna a sua deplorável existência um projeto viável. É um complexado, um aborto. Sim, o piolho de bordel é um personagem peçonhento, mas piores são os parasitas que o seguem, aqueles que se reúnem em torno dele na mesa da infâmia. Existem muitos desses tipos no universo da luxúria, são os recalcados, os ressentidos, os covardes, os ignaros, os velhacos, os lunáticos e os sem talento. O puteiro é um aquário de água turva e quando o libertino mergulha na promiscuidade sabe que encontrará a piranha-zombeteira, o baiacu de bordel, o peixe-boi-de-lamparina, a enguia-de-óculos, o pacu-careca, o traíra-de-fumódromo e algumas outras espécies ordinárias que vicejam nesta insidiosa cadeia alimentar. O libertino é, antes de tudo, um sobrevivente.

Sobre o libertino, não pense que é aquele que não ama. O libertino é o intrépido que ama demais, repetidas vezes. É um ingênuo na busca incansável pela perfeição e pelas boas amizades boêmias, que são raríssimas. O bordel é um ambiente de competição, de jogo de interesses e de ostentação, difícil brotarem bons sentimentos em territórios com essa atmosfera. O libertino é a representação da elegância, da fineza. Ao contrário do piolho de bordel, conhecido pelo gosto duvidoso, pelo desalinho e pelos ardis inescrupulosos. O libertino é um esteta apaixonado pela beleza feminina e pela polidez dos gestos. É um contemplador silencioso, um discípulo do bom-humor, um eterno aprendiz da sedução. Diante disso, afeiçoado forista, guarde na memória que o melhor libertino não é “sub” nem “super”, mas é humano.

É óbvio que o piolho de bordel e o libertino são figuras heterogêneas, antagônicas. O piolho, por ser um espírito medíocre, sempre se lançará contra o libertino com a cólera do fanfarrão, tachará de maluco, irá jurá-lo de morte ou de injustas agressões que alimentem sua autoafirmação. Todo medíocre precisa se autoafirmar constantemente, na tentativa vã de ocultar de si mesmo a própria mediocridade. Atente, o piolho de bordel é um lacaio de cafetão, abana o rabo a espera de um biscoito ou de qualquer vantagem, ou simplesmente bajula por considerar que ser amigo do cafetão aumenta seu status no puteiro e entre seus pares. O libertino, porém, carrega a misteriosa grandeza que os medíocres não compreendem nem alcançam.

Veja, destemido forista, a mediocridade não está atrelada a nível de instrução, berço ou condição financeira. O medíocre carrega a mediocridade como um traço da pessoal, tenha ele curso superior, doutorado ou apenas o curso primário. A mediocridade é uma condição. O piolho de bordel existe nesta condição.

Depois do tratado de filosofices, espera-se a ação. Toda história tem um começo, que invariavelmente ocorre na maternidade. No exemplo deste causo, ele teve início em outro tópico cuja visita não custará esforço demasiado à obstinação do valoroso leitor. O link segue abaixo.

https://www.gp-guia.net/viewtopic.php?f=192&t=203322&p=2592210#p2592169


* CONTINUAÇÃO DE OUTRO RELATO

A fera estava à distância de dois fôlegos quando consegui retomar o controle do Sucatão. Acelerei em fuga, sem olhar para trás. Atravessei às margens do campo imperial da Quinta da Boa Vista em direção à bucólica Tijuca.

Passaram-se alguns dias e chegamos à semana do meu aniversário. Aniversário é uma palavra contraditória para quem adentra pela velhice. Para os outros, soa como comemoração; para quem envelhece é como assistir a repetidos crepúsculos, até o pôr do sol definitivo. Mas enquanto há vida, há sexo. Meu dilema continuava, me equilibrava entre o irrefreável desejo libidinoso e o receio da contaminação pelo vírus. Refleti muito e cheguei à conclusão de que seria correto eu me oferecer um presente na minha data, uma banal ejaculação ao menos. Empenhei-me em traçar uma estratégia que preservasse a minha segurança caso conseguisse um momento de lascívia. Fui separar o traje para a ocasião: calça comprida, blusa de mangas, camiseta por baixo, luvas, boina, óculos de segurança, botas, meias, álcool gel e desodorante.

– Desodorante? Por que isso, Dante? – Questionaria o forista desconfiado.

Aguarde, meu dileto colega. Estas linhas tortas revelarão as razões do autor.

Levei um borrifador com álcool para o Sucatão, disparei em cada canto da cabine. Finalmente, quando me sentei à frente do volante, a sensação foi de estar no prefácio de uma viagem para o espaço sideral. Eram os libertinos astronautas? Eu me sentia um, a roupa pesava e o suor começava a brotar da testa. Girei a ignição, o carro ronca como um leão despertado à força. Piso no acelerador, solto a embreagem e ganhamos, eu e o bravo Sucatão, o negrume imprevisível do asfalto.

As ruas semidesertas, poucos carros trafegando por onde eu passava, um clima noir reinava sobre a cidade em quarentena. Em alguns momentos, eu parecia estar num filme de ficção científica, daqueles em que a Terra foi devastada numa batalha decisiva, em que a humanidade foi quase extinta. Sabendo que não tinha muitas opções, rumei para a Vila Mimosa.

Estaciono na rua Ceará e é quando escuto uns gritos.

– Dotô, dotô. Vai pra zona?

Rodo o pescoço e vejo a figura cavernosa de um flanelinha subnutrido cuspindo perdigotos para todos os lados. Rapidamente, meti a mão na carteira e puxei dois reais.

– Ô, dotô. Dois reais não dá nem pro café, dotô.

– Quanto você quer, meu filho?

– Pode ser dez reais, dotô.

Dei os dez reais.

– Cê me lembra meu avô, Dotô.

Aqui, dei as costas e segui meu caminho, antes que a carência dele o fizesse me abraçar.

Submergi na rua Sotero Reis. Provavelmente, fui o único passante vestido com máscara e luvas dentro dos corredores. O cenário deprimia. Somente mulheres horríveis, com olhar suicida, teimavam em estar ali. Pouquíssimas almas se arriscavam como eu. O peso do vírus também oprimia a velha VM. Dei duas voltas sentindo engulhos ao olhar para as casas e me retirei.

Volto ao Sucatão. Ligo o carro e o flanelinha faquir surge à frente gesticulando como se estivesse orientando a decolagem de um avião. Acelero e disparo na pista.

Decidi novamente arriscar a Lapa, já que rumores falavam sobre a abertura dos bares. Entrei pela árida rua da Relação, embiquei na soturna Gomes Freire, saí na irreconhecível Mem de Sá, pequei a calada Riachuelo, retornei pela lúgubre Lavradio. A conclusão é que nem o vírus devia estar circulando por ali. Só avistei cracudos esparsos e dois pés-sujos abertos. Por um reflexo involuntário, dobrei à direita, na rua do Rezende ao ver um boteco funcionando. Ao lado dele, no Hotel Andorinha, umas cinco meninas com roupas decotadas dançavam eufóricas em frente à garagem. Parei o Sucatão numa vaga entre as milhares de vagas ociosas de uma insólita noite de sexta-feira. Desci do carro e caminhei para o boteco fazendo questão de passar próximo às meninas. Sim, forista sem fé, eram meninas. Eu também cheguei a supor que fossem travestis, mas eram mulheres legítimas, sem vestígios de implantes paraguaios.

No boteco, pedi algo que há muito tempo não tomava, uma dose de Ypioca com Catuaba. Desceu como lava vulcânica pela minha garganta. Engasguei, mas insisti numa segunda dose imaginando que não esbarraria com blitz da Lei Seca. Foi na terceira dose que a vi, vaporosa, bela e insensata, entrou pisando sobre os ladrilhos do botequim e me ofereceu seu beijo inebriante: era ela, a Felicidade do ébrio, pois apenas os ébrios enxergam a Felicidade.

Semitrôpego, deixei o boteco com a intenção de voltar ao Sucatão. Passo novamente em frente ao Hotel Andorinha. Uma das meninas me encara e manda um beijinho. Estanquei o passo. Aproximei-me dela e perguntei sem rodeios à branquinha como poderíamos ficar juntos.

– Cem reais, bebê.

Confesso, estimado forista, a palavra “bebê” para mim é o anticlímax do tesão, uma puta que chama o cliente de “bebê” já demonstra que é má profissional. Foi por isso que escolhi a que estava ao lado da que falou comigo, uma negra suntuosa e de pernas bem torneadas. Fiz a entrevista básica e informei que talvez só me restringisse à necessidade do boquete até o fim. Ela aceitou os termos. Apresentou-se como Dandara. Entrei no Hotel Andorinha. Alcova...

Mantive a máscara ao rosto e não tirei a camisa. Nada de beijos. Arriei a calça, sentei na beira do colchão e a negra me engoliu com os lábios carnudos. O que eu senti? Dor indescritível. A puta não chupava, mordia. Aquilo não foi um boquete, mas uma sessão de tortura que tornava o Hotel Andorinha, nome tão singelo, numa filial futurística do DOI-CODI. Por alguma razão que me escapa, tentei aguentar aquelas dentadas na esperança de que tudo iria melhorar. Antes que a menina decepasse meu pênis, entreguei os pontos. Sim, colega forista, é aqui que entra a utilidade do desodorante, levei o desodorante para que ele cumprisse o papel de desinfetante. Sacudi a cápsula e borrifei o pau com Rexona. Foi neste dia que conheci a Lua. Ardeu muito, ardeu demais. O contato do álcool com a fissura das mordidas da canibal causou-me um espasmo de aflição atroz, minha vista chegou a embaçar. A garota, vendo a minha agonia, começou a assoprar meu membro combalido. Aos poucos, a ardência foi se dissipando e revivi.

Como já estava tudo fodido, pedi para a menina tirar a calcinha e ficar de quatro. Meti, mas com algum receio de que aquela vagina pudesse ter alguma inclinação canibalesca. Bombeei com força e velocidade. A mulher gemia gostoso. Gozei. Creia, afeiçoado forista, por segurança borrifei novamente o Rexona no pau. Dessa vez, a ardência extrema não me surpreendeu, mordi o pacote da camisinha para suportar. Eu tratei 80 reais com a menina, que pedia 100, mas terminei dando os 100. A avareza não é digna de um libertino.

Dentro do Sucatão, ligo o rádio, giro a chave, pé no acelerador. Os pneus se movem sobre o enigma do asfalto, o destino não é previsto pela meteorologia. O carro ganha velocidade. Sinto uma onda de euforia, mas sei que o mundo não está bonito. A última fronteira para o libertino é o resgate da adrenalina e da aventura que conheceu no início da vida sexual. Pelas caixas de som transborda A$AP Rocky - Everyday ft. (Rod Stewart, Miguel, Mark Ronson). O céu cinza e noturno não refletia esperança. Acelerei. Que venham. O libertino é um sobrevivente.

Everyday
ESTRUTURA DA CASA ORGANIZAÇÃO DA CASA
RAZOáVEL RAZOáVEL
Random 10/06/2020 00:16

Foi ótimo para matar minha curiosidade de como anda a VM. :D

alan26272829 08/06/2020 21:02

hehe mais um show no TD Dante, rsrs

Limoeiro 08/06/2020 19:53

Kkk muito bom esse td. Melhor que Netflix rs

Saulo Top 08/06/2020 13:03

Relato muito louco...kkkkkkk

membro, Random, Diazepan, Radamel curtiram esse relato.
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