24 de Abril de 2025 às 09:33
A Lapa tem um cheiro próprio. Um misto de cerveja choca, perfume barato e promessas falsas. Para mim, é mais que um bairro — é um estado de espírito. É a minha Ítaca. Toda vez que cruzo os Arcos, sinto que retorno de uma guerra antiga. Uma guerra contra o celibato, contra os algoritmos cruéis do Tinder, contra a realidade que insiste em me lembrar que a libido, quando ignorada por tempo demais, começa a se manifestar nas formas mais esquisitas.
Como, por exemplo, uma ereção involuntária durante o filme “
Um Senhor Estagiário”. Quando
Anne Hathaway me encarou através da tela, minha libido, que dormia em posição fetal há semanas, se espreguiçou.
Robert De Niro, coitado, não entendeu nada.
Sim. Foi ali, entre diálogos fofos e planos de câmera, que Anne Hathaway me lançou um olhar digital e eu percebi que precisava fazer algo. Algo prático. Concreto. Sem filtro de Instagram ou cerveja artesanal. Precisava de um corpo. Um corpo real. E de preferência, um que não me julgasse por ficar excitado em comédias românticas com a Anne Hathaway.
Naquela sexta-feira, a Lapa me chamou com sua voz rouca de cigarro e batom borrado. Eu precisava viver uma aventura carnal. Ou, ao menos, encostar em alguém que não fosse a senhora da padaria que insiste em me chamar de “
coroa bonito” com uma compaixão que me ofende.
Foi assim que parei diante da
Up House.
Dizem que o lugar já foi uma casa de família, o que faz sentido, considerando o número de “primas” que devem ter sido concebidas ali. A fachada discreta, quase tímida, disfarça o que se passa lá dentro com a elegância de um político explicando gastos com “
assessoria”.
Fui recepcionado por uma mulher que chamarei de Gladys, porque ela tinha cara de Gladys. Um coque firme, um olhar treinado para detectar homens nervosos, e uma prancheta com nomes falsos. Saudou-me com um “
boa noite, guerreiro” que me desarmou. Guerreiros não têm boleto atrasado. Mas aceitei o título. Guerreiros também mentem para si mesmos.
— Nome? — perguntou, sem levantar os olhos.
— Fábio — respondi, com a convicção de quem sabe que, em lugares assim, todo mundo é Fábio — pois sempre que me apresento como DANTE entendem DENTE e respondem que o dentista é do outro lado da rua.
Ela assentiu com um “
Ok” protocolar e me apontou a porta de entrada. O ambiente tinha iluminação amarelada, trilha sonora que alternava entre funk e suspiros de tédio. Havia um pole dance esquecido num canto — inútil, mas decorativo, como um bidê em apartamento de solteiro.
Foi quando ela apareceu.
Paloma.
Era loira, ou algo que, sob aquela luz, poderia ser loiro, cobre ou um tom raro de caramelo industrializado. O vestido parecia desenhado por um tatuador hiperativo, e o salto alto dela produzia um som que misturava erotismo e ameaça.
— Você que marcou comigo 22h15? — perguntou, já avaliando minha cara como quem examina uma peça no brechó.
— Sou o Dante — respondi, e percebi que isso não significava absolutamente nada para ela.
— Então vamos.
Perplexo pela situação, aceitei o convite inesperado. Ela me levou até o caixa, paguei e subimos por uma escada que rangia como a minha consciência
— Você parece perdido — ela disse.
— Eu sempre pareço perdido — respondi, como quem confessa uma falha de fabricação e me dando conta do que pensaria o verdadeiro cliente das 22h15 quando chegasse.
A menina era direta, prática e com uma eficiência de atendente de
Call Center em final de turno. Usava um vestido tão justo que me tirava o ar. E tinha olhos tão determinados quanto os de uma auditora da Receita Federal.
Paloma, com a experiência de quem já havia atendido um pedreiro e um neurologista naquela mesma noite, iniciou o ritual com uma pergunta digna de terapeuta:
— Quer com carinho ou com força? — perguntou, ajeitando o cabelo como se estivesse prestes a apresentar a previsão do tempo em algum telejornal.
—
Algo intermediário... tipo “sessão da tarde com cenas quentes”.
Ela riu. Acho que riu. Pode ter sido só um espasmo facial.
O primeiro beijo foi técnico. O toque, ensaiado. E tudo tinha uma beleza triste, como dança de casamento quando a banda já está desmontando o teclado. Mas havia ali um tipo de verdade crua, nua e completamente embriagada. Uma tentativa desesperada de dois corpos fazerem sentido num mundo que já não faz mais.
E assim começou o que chamei mentalmente de “
Copulação 2: O Retorno”. Não foi exatamente memorável, mas houve momentos de humanidade. Uma mão que tremia. Um elogio fora de hora. Um momento em que nossas cabeças bateram com força por falta de sincronia.
— Acontece sempre? — perguntei, tonto.
— Só quando o cliente é alto.
A coisa toda durou 15 minutos e meio, incluindo dois minutos de preliminares, três de confusão com a camisinha, e o restante foi uma espécie de coreografia que envolvia uma cama com lençol de oncinha e um espelho mal posicionado.
Houve momentos genuínos. Um único gemido. Uma cãibra sincera na minha perna esquerda.
Terminada a epopeia, deitei-me por alguns segundos, como quem sobreviveu a um furacão pequeno, mas barulhento. Paola me ofereceu um pirulito de uva, talvez como símbolo fálico ou apenas porque era o que ela tinha ao alcance da mão.
Saí de lá mais leve. Menos por ter alcançado o clímax e mais por ter me reconectado com algo que eu tinha esquecido: o toque, o calor, a comédia absurda de dois desconhecidos tentando fazer sentido em cima de uma cama.
Na porta do quarto, ao sair, Paloma me deu um beijo na testa — como uma freira sacana.
— Se cuida, Dante.
— Eu não me chamo Dante.
— Hoje sim.
Ganhei as ruas com a dignidade levemente comprometida e os cabelos cheirando a desinfetante floral. A Lapa continuava viva lá fora — bêbados, poetas frustrados, e uma moça discutindo com um
motoboy sobre horóscopos. Me senti parte da fauna urbana novamente, um animal em extinção que ainda acredita que sexo pode ser uma metáfora para qualquer coisa, até para um filme com o Robert De Niro.
Na calçada, acendi um cigarro imaginário — gosto da pose — e olhei para o céu da Lapa, escuro como minha conta bancária. Senti que, de algum modo, minha noite havia sido produtiva. Eu havia vivido. Ou, no mínimo, pagado por isso.
E no fundo, não é isso que todos os Ulisses querem? Voltar para casa, mesmo que seja sozinho, com uma história que ninguém vai acreditar?
Ou quase.