REFLEXÕES DE UM LIBERTINO EM CRISE (OFF-TOPIC)

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REFLEXÕES DE UM LIBERTINO EM CRISE (OFF-TOPIC)

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Acossado por um vazio descomunal, estive pela primeira vez em uma psicóloga. Decidi ir motivado por amigos, para tentar compreender e diluir as ondas de depressão e ansiedade que me assolam em alguns momentos, principalmente após o falecimento do meu pai. No fim da sessão, experimentei o sentimento de que isso não irá me ajudar no meu reencontro comigo. Não é para mim. Apesar dessa impressão, houve um momento interessante, quando a psicóloga me fez uma pergunta simples.

— O que você deseja para você? — Ela questionou.

Naquele instante, não me ocorreu nada que não parecesse banal. Fiquei sem resposta. Porém, assim que deixei o consultório, uma frase piscou em neon na minha mente: queria ser eu, capaz de existir sem alugar a minha alma.

Lembrei-me das tantas vezes aluguei minha alma para ter um salário, um emprego e o quanto terminei oprimido por essas escolhas. Desistia após alguns anos porque não suportava ficar preso a uma obrigação que me sufocava. Nunca enxerguei perspectiva promissora se não me integrasse ao sistema. Fui conquistando e abandonando caminhos. Um conjunto de fragmentos sem encaixe. Do nada, no meio dessas filosofices, me peguei pensando em personagens extraordinários. Gauguin, Van Gogh, Zola, Rimbaud, todos escolheram caminhos que os refletiam. Abdicaram, renunciaram, tomaram partido, enlouqueceram, mas não entregaram a alma. Obstinação. Todos eles destemidos. Escolher-se pode ser trágico, mas não se escolher é um abismo inevitável. Tive amigos que seguiram pelo teatro, pela música, pela escrita e colheram sucesso porque não se desviaram do que eram. Eu insisti no sistema, envelheci insistindo. Indisciplinado. Não alcancei nem um nem outro. Não me inspirei por aqueles a quem admirava, me convenci de que não podia escapar do convencional e me esforcei para continuar incluído no padrão que parecia o único horizonte viável. Não me atrevi a fugir com o circo.

— O que você deseja para você?

Se ela me perguntasse novamente, eu responderia: tudo o que eu não tive determinação e coragem de ser.
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Re: REFLEXÕES DE UM LIBERTINO EM CRISE (OFF-TOPIC)

Mensagem por membro »

Meu pai faleceu há dez meses, uma dor que ainda vibra. Seu velório foi tão triste quanto a sua saída de cena. Além de mim, somente duas pessoas estavam presentes, meu irmão e uma vizinha solidária. A pandemia causou perdas e agravou a angústia da perda. De frente para o corpo apagado, não reconhecia meu pai, era um abismo. Meu pai não morreu pelo vírus, morreu por um tropeço fatal. A vida inteira lutou contra um glaucoma implacável, que na juventude roubou-lhe um dos olhos e aos setenta anos escureceu de vez a sua visão. Um tropeço o fez eterno.

Um homem simples, mais ligado aos números do que às letras. Funcionário público, fez carreira até atingir a máxima posição que o seu órgão permitia. Nos muitos apertos que passou nos seus 83 anos, se virava nos trinta, dava um jeito. No leito da UTI, estava preocupado em pagar as contas da casa, em sair até o Natal para não decepcionar minha mãe. Nunca vi meu pai triste, mesmo cego não perdeu o humor. Alegre, brincalhão, debochava da própria condição trágica que a vida lhe impôs. Jamais perdeu a esperança de voltar a enxergar, um otimista. Seu círculo fiel fomos nós, a família. Meu pai emanava uma luz que rompia o blecaute dos seus olhos. Tantas vezes me fez rir, tantas vezes fez rir quem o rodeava. Eu quis escrever antes para homenageá-lo, mas não conseguia. A vista embaça durante a busca das palavras.

Antes de perder a visão, meu pai lia jornais compulsivamente, do início ao fim. Gostava de estar sintonizado com o mundo. À noite, pegava seu radinho de pilha e ia para o portão de casa ouvir um jogo de futebol com o Vasco ou um programa qualquer. Meu pai adorava rádio e talvez o rádio tenha sido o seu consolo anunciado quando os olhos se foram. Meu pai ficou cego, mas nunca triste. No portão, com seu radinho, colecionava amigos. Preferia gente simples, era o “tio” dos porteiros, o "padrinho" de quem pedia ajuda ou buscava uma conversa. Um homem bom, generoso. Santo? Não. Se fosse santo, seria perfeito, mas meu pai não almejava a perfeição, preferia ser humano.

Meu pai foi o meu horizonte. Diante dele, em uma capela do cemitério do Caju, a sua ausência refletia um precipício. De repente, transbordei em um choro incontido. Meu pai não gostaria daquela cena, meu pai nunca foi triste. Pedi perdão, mas não dava para evitar o desalento daquela morte neste mundo devastado. Eu, a vizinha, meu irmão e o corpo inerte do meu pai deitado entre flores. Nunca senti tanta solidão.

Agarrei-me à solidariedade das pessoas que tentaram me confortar. O único fato que o magoava era a falta de afeto; o desprezo esnobe; gente que, no fim, não ofereceu nem sequer os pêsames. Meu pai não foi triste, foi um amoroso e talvez eu tenha herdado isso dele.

A morte traz arrependimentos. Queria ter me lançado em um último abraço. Queria que tivéssemos ido comemorar todo o seu amor imenso num daqueles rodízios de churrasco que ele tanto gostava e me fez gostar. Queria ter dito uma última vez o que eu disse tão pouco, tão pouco durante o privilégio da sua companhia... Que a minha escrita diga agora por mim. Amo você, meu pai. Obrigado por tudo.
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Re: REFLEXÕES DE UM LIBERTINO EM CRISE (OFF-TOPIC)

Mensagem por Brand »

Dante escreveu:Meu pai faleceu há dez meses, uma dor que ainda vibra. Seu velório foi tão triste quanto a sua saída de cena. Além de mim, somente duas pessoas estavam presentes, meu irmão e uma vizinha solidária. A pandemia causou perdas e agravou a angústia da perda. De frente para o corpo apagado, não reconhecia meu pai, era um abismo. Meu pai não morreu pelo vírus, morreu por um tropeço fatal. A vida inteira lutou contra um glaucoma implacável, que na juventude roubou-lhe um dos olhos e aos setenta anos escureceu de vez a sua visão. Um tropeço o fez eterno.

Um homem simples, mais ligado aos números do que às letras. Funcionário público, fez carreira até atingir a máxima posição que o seu órgão permitia. Nos muitos apertos que passou nos seus 83 anos, se virava nos trinta, dava um jeito. No leito da UTI, estava preocupado em pagar as contas da casa, em sair até o Natal para não decepcionar minha mãe. Nunca vi meu pai triste, mesmo cego não perdeu o humor. Alegre, brincalhão, debochava da própria condição trágica que a vida lhe impôs. Jamais perdeu a esperança de voltar a enxergar, um otimista. Seu círculo fiel fomos nós, a família. Meu pai emanava uma luz que rompia o blecaute dos seus olhos. Tantas vezes me fez rir, tantas vezes fez rir quem o rodeava. Eu quis escrever antes para homenageá-lo, mas não conseguia. A vista embaça durante a busca das palavras.

Antes de perder a visão, meu pai lia jornais compulsivamente, do início ao fim. Gostava de estar sintonizado com o mundo. À noite, pegava seu radinho de pilha e ia para o portão de casa ouvir um jogo de futebol com o Vasco ou um programa qualquer. Meu pai adorava rádio e talvez o rádio tenha sido o seu consolo anunciado quando os olhos se foram. Meu pai ficou cego, mas nunca triste. No portão, com seu radinho, colecionava amigos. Preferia gente simples, era o “tio” dos porteiros, o "padrinho" de quem pedia ajuda ou buscava uma conversa. Um homem bom, generoso. Santo? Não. Se fosse santo, seria perfeito, mas meu pai não almejava a perfeição, preferia ser humano.

Meu pai foi o meu horizonte. Diante dele, em uma capela do cemitério do Caju, a sua ausência refletia um precipício. De repente, transbordei em um choro incontido. Meu pai não gostaria daquela cena, meu pai nunca foi triste. Pedi perdão, mas não dava para evitar o desalento daquela morte neste mundo devastado. Eu, a vizinha, meu irmão e o corpo inerte do meu pai deitado entre flores. Nunca senti tanta solidão.

Agarrei-me à solidariedade das pessoas que tentaram me confortar. O único fato que o magoava era a falta de afeto; o desprezo esnobe; gente que, no fim, não ofereceu nem sequer os pêsames. Meu pai não foi triste, foi um amoroso e talvez eu tenha herdado isso dele.

A morte traz arrependimentos. Queria ter me lançado em um último abraço. Queria que tivéssemos ido comemorar todo o seu amor imenso num daqueles rodízios de churrasco que ele tanto gostava e me fez gostar. Queria ter dito uma última vez o que eu disse tão pouco, tão pouco durante o privilégio da sua companhia... Que a minha escrita diga agora por mim. Amo você, meu pai. Obrigado por tudo.

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Dionizio_RJ
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Re: REFLEXÕES DE UM LIBERTINO EM CRISE (OFF-TOPIC)

Mensagem por Dionizio_RJ »

Dante escreveu:Acossado por um vazio descomunal, estive pela primeira vez em uma psicóloga. Decidi ir motivado por amigos, para tentar compreender e diluir as ondas de depressão e ansiedade que me assolam em alguns momentos, principalmente após o falecimento do meu pai. No fim da sessão, experimentei o sentimento de que isso não irá me ajudar no meu reencontro comigo. Não é para mim. Apesar dessa impressão, houve um momento interessante, quando a psicóloga me fez uma pergunta simples.

— O que você deseja para você? — Ela questionou.

Naquele instante, não me ocorreu nada que não parecesse banal. Fiquei sem resposta. Porém, assim que deixei o consultório, uma frase piscou em neon na minha mente: queria ser eu, capaz de existir sem alugar a minha alma.

Lembrei-me das tantas vezes aluguei minha alma para ter um salário, um emprego e o quanto terminei oprimido por essas escolhas. Desistia após alguns anos porque não suportava ficar preso a uma obrigação que me sufocava. Nunca enxerguei perspectiva promissora se não me integrasse ao sistema. Fui conquistando e abandonando caminhos. Um conjunto de fragmentos sem encaixe. Do nada, no meio dessas filosofices, me peguei pensando em personagens extraordinários. Gauguin, Van Gogh, Zola, Rimbaud, todos escolheram caminhos que os refletiam. Abdicaram, renunciaram, tomaram partido, enlouqueceram, mas não entregaram a alma. Obstinação. Todos eles destemidos. Escolher-se pode ser trágico, mas não se escolher é um abismo inevitável. Tive amigos que seguiram pelo teatro, pela música, pela escrita e colheram sucesso porque não se desviaram do que eram. Eu insisti no sistema, envelheci insistindo. Indisciplinado. Não alcancei nem um nem outro. Não me inspirei por aqueles a quem admirava, me convenci de que não podia escapar do convencional e me esforcei para continuar incluído no padrão que parecia o único horizonte viável. Não me atrevi a fugir com o circo.

— O que você deseja para você?

Se ela me perguntasse novamente, eu responderia: tudo o que eu não tive determinação e coragem de ser.
Na vida perdemos tanto ou mais do que conquistamos e normalmente são as derrotas e perdas que mais ensinam e nos fazem refletir. O tempo passa do mesmo jeito fazendo ou não, mudando ou não, portanto nunca é tarde para lutar pelo que desejamos.

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"Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure!"
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