ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!

Crônicas, histórias e contos dos membros e garotas que participam no GPARENA! Fiquem à vontade para participar!
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!

Mensagem por membro »

Imagem


Envelheci — o que já é, por si só, uma espécie de doença incurável. Na minha idade, a gente não ama: escapa da morte com um pouco de sorte e um Omeprazol genérico. Mas fiz o que nenhum homem deveria fazer depois de certa idade: entrei no Tinder. Sim, o Tinder! Aquilo não é um aplicativo, é um suicídio social.

Foi ali que ela apareceu — Yasmim. Vinte e três anos. Vinte e três! Ou seja: sem rugas, sem memória, sem passado. Era jovem, fresca, e falava como se o mundo fosse uma peça de teatro onde só ela tinha o papel principal. Eu, um velho vencido pelo próprio hálito fui tomado por uma esperança patética. O desejo não envelhece — o que envelhece é o corpo que precisa carregá-lo.

Marcamos um encontro na Quinta da Boa Vista. Um lugar cheio de árvores e casais. Odeio casais. Nada mais obsceno do que dois apaixonados num parque. A paixão é indecente, sobretudo quando vista de fora. Mas fui. Cheguei cedo, naturalmente. Os idosos chegam cedo a tudo: consultas, enterros, decepções.

Ela chegou com trinta minutos de atraso — e com uma roupa tão indecente que até os gatos se esconderam no mato. Usava uma blusa transparente exibindo um micro top e uma calça que era quase uma provocação divina. Sorriu como se eu fosse uma piada cósmica. Dei-lhe um beijo no rosto e chamei aquilo de destino. Ela me chamou de “meu velhinho”. Era como ouvir um tiro disparado dentro da alma. E eu, num misto de fascínio e autoconsciência, percebi que aquele encontro já nascia com mais ironia do que futuro.

Andamos pelo parque. Quer dizer, ela andava, eu ia tentando correr atrás dela. Falava sobre teatro, chacras, signos e energia cósmica. Eu só pensava no meu intestino preso e na próxima consulta no cardiologista. Em certo momento, ela me contou de uma peça que havia encenado em que representava a “memória coletiva de uma cidade em crise”. Eu tentei acompanhar, mas me sentia como um rádio AM tentando captar um podcast em sueco.

A certa altura, mencionei que estava lendo um ensaio sobre Spinoza — uma tentativa patética de parecer intelectualmente interessante. Ela disse que “precisava mergulhar mais na filosofia ocidental”, e por um breve segundo pensei que havia estabelecido algum tipo de conexão. Mas então ela tirou do bolso um cristal e passou a girá-lo entre os dedos como quem invoca alguma frequência que eu, definitivamente, não alcançava.

Ela perguntou meu signo. Respondi “pressão alta com ascendente em labirintite”. Riu de novo. Achei que estava indo bem.

Quando tentei tirar uma foto de nós dois, como prova do milagre — como quem captura um fantasma —, abri a câmera, acionei a lanterna sem querer, e fiquei cinco minutos iluminando a cara dela como se fosse um interrogatório da KGB. Gaguejei desculpas. Ela achou engraçado. Eu quis morrer.

Mas o golpe final veio quando ela disse, com a leveza dos desalmados, que tinha um “ritual de cura sonora” e precisava ir. Fiquei imaginando um coral de taças tocando Beethoven com sinos de vento. Foi embora de patinete, veja bem — de patinete! — como se fosse um anjo moderno. Acenou para mim com os dedos pintados de verde-limão e sumiu. Fiquei ali, parado, sentindo o peso do tempo nas vértebras e a humilhação nas tripas.

Sentei-me num banco e contemplei o lago. Um pato me olhou com pena, como se dissesse: o desejo, meu caro, é uma crueldade que sobrevive à ruína.

E ali, entre crianças gritando, vendedores de picolé e casais infelizes fingindo plenitude, eu entendi: o velho não tem direito ao amor. O amor exige juventude ou dinheiro. E eu não tenho mais nenhum dos dois.

Talvez esteja na hora de experimentar um baile da terceira idade na bucólica Tijuca. Lá ninguém fala de chacras, e todo mundo já operou pelo menos uma hérnia.” — pensei.

Voltei para casa com a sensação de que talvez a vida seja isso mesmo: uma sucessão de encontros que revelam, mais do que qualquer outra coisa, o tamanho exato do nosso deslocamento no mundo. E ainda assim, insisto. Porque — e isso aprendi tarde demais — há algo profundamente humano em se permitir o ridículo. Sobretudo quando se está vivo. Ou algo próximo disso.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!

Mensagem por membro »

Nunca fui bom com encontros. Quando digo "nunca", não é hipérbole: é estatística. Há um padrão irrefutável de constrangimentos, silêncios, suores e digestões precoces. Mas ali estava eu, um homem idoso com refluxo crônico, indo ao Habib’s perto do Parque União, na Avenida Brasil — o único lugar no mundo onde se pode meditar sobre a existência ao som de uma fritadeira industrial — para encontrar aquela que, segundo o Tinder, gostava de Nietzsche, maquiagem artística e “homens intensos”. Três sinais claríssimos de desastre. Mas fui assim mesmo, como quem vai ao dentista sem anestesia, apenas porque o dente está doendo e o tédio é maior que o medo.

Ela chegou como um comercial de perfume em câmera lenta: cabelos esvoaçantes, saltos absurdos e uma boca pintada com uma precisão que só pode ter sido aplicada com instrumento cirúrgico. Os olhos eram castanhos, enormes, e me analisaram com uma condescendência leve, como quem encara um objeto de estudo, um ornitorrinco ou uma tese mal escrita. Sorri com o que imaginei ser charme, mas que, à luz do espelho retrovisor da vergonha, era apenas uma contração facial nervosa. Ela me cumprimentou com um beijo no rosto que durou 0,3 segundos — o suficiente para deixar um rastro de Boticário e a certeza de que eu estava fora da minha liga, do meu país e da minha espécie.

Sentamo-nos. Ela pediu uma esfiha de queijo e uma Coca Zero. Eu, ansioso e com a gastrite em estágio de pré-guerra, pedi só água, como quem jejua por autopreservação. O silêncio foi imediato e, como todo bom silêncio entre dois desconhecidos, parecia que gritava. Comecei a falar — porque é isso que homens como eu fazem quando não têm mais o que fazer: falam. Falei sobre a violência, falei sobre a falta de sentido da vida, sobre como uma vez sonhei com uma girafa que falava russo. Ela me olhava como quem assiste a um documentário sueco sem legenda.

Então ela começou a falar — e o mundo caiu. Disse que acreditava em astrologia, que já tinha feito um mapa astral do nosso encontro antes mesmo de me ver pessoalmente, e que, segundo os astros, eu era “emocionalmente enclausurado, com tendência a sabotagens cármicas”. Agradeci, com a naturalidade de quem recebe um diagnóstico terminal numa praça de alimentação. Tentei responder com ironia, mas ironia exige cumplicidade, e ela levava tudo muito a sério. Quando mencionei que talvez meu ascendente fosse pizza, ela não riu — apenas mordeu sua esfiha com a solenidade de quem participa de um ritual iniciático.

A coisa degringolou de vez quando ela revelou que trabalhava como manipuladora de cristais. Eu perguntei, com genuína curiosidade: “Cristais... tipo os de sal grosso?” Ela não achou graça. Disse que meu ceticismo bloqueava minha “energia de troca”, e que estava me sentindo muito “linear”. Tentei explicar que sou tão linear que até meus pensamentos têm fila indiana e senha eletrônica, mas percebi que estávamos em idiomas diferentes. Enquanto ela falava de chacras, eu pensava se o Habib’s tinha uma saída de emergência por onde eu pudesse fugir sem derramar o copo d’água.

O encontro acabou com um silêncio abissal e a promessa — nunca pronunciada — de que nunca mais nos veríamos. Caminhei até o Sucatão com a estranha sensação de que havia participado de uma experiência extracorpórea. Passei por um grupo de adolescentes rindo alto e, pela primeira vez na noite, me senti profundamente identificado: também ria — de mim mesmo, da minha esperança juvenil e do Tinder, que é, no fundo, um aplicativo para acelerar o fracasso amoroso com geolocalização.
sodepassagem
/\
/\
Mensagens: 85
Registrado em: 19 Nov 2025, 16:52

Re: ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!

Mensagem por sodepassagem »

Ótimo tópico e dois ótimos relatos como sempre kkkk

Algum motivo pras "meninas dos cristais" darem match?
Avatar do usuário
Diaz22
Verified
/\
/\
Mensagens: 7
Registrado em: 22 Jan 2025, 16:34

Re: ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!

Mensagem por Diaz22 »

Confadre, seus contos são sempre interessantes e com um conteúdo riquissímo.
Parabéns.
Também tenho histórias para contar do tinder. Desde encontro com civis,oferta com sexo pago e até ofertas de sexo pago que no final das contas nem rolou grana, e sim apenas sexo casual.
Poderia postar meus contos nesse tópico ou terei que abrir outro ?
Alguém pode me ajudar ?
Avatar do usuário
vadeR
/\
/\
Mensagens: 1466
Registrado em: 18 Abr 2023, 17:14

Re: ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!

Mensagem por vadeR »

Diaz22 escreveu: 07 Ago 2026, 20:54 Confadre, seus contos são sempre interessantes e com um conteúdo riquissímo.
Parabéns.
Também tenho histórias para contar do tinder. Desde encontro com civis,oferta com sexo pago e até ofertas de sexo pago que no final das contas nem rolou grana, e sim apenas sexo casual.
Poderia postar meus contos nesse tópico ou terei que abrir outro ?
Alguém pode me ajudar ?
Cria um tópico pra vc contar seus contos e crônicas nessa mesma área.
Responder