BEIJO
NãO SEI
ORAL
SIM - SEM CAMISINHA
ORAL COMPLETO
SIM
ANAL
NãO SEI
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
NãO
Ainda deitado, sinto que todos os órgãos do meu corpo estão em assembleia permanente: o fígado protesta contra a cerveja de ontem, os rins fazem greve de silêncio, e o coração, coitado, bate com a resignação de um trabalhador em véspera de feriado cancelado.
Minha primeira missão é buscar pão. O caminho até a padaria é composto por dois quarteirões e meio de decadência urbana. No balcão, o atendente se recusa a me olhar nos olhos, como se eu tivesse sido flagrado num bacanal clandestino em Ipanema. Peço três pães, um café e a chance de recomeçar. Ele me dá só os pães.
O Rio é essa metrópole bipolar onde o mar azul cintila como uma miragem enquanto a merda boia nas margens feito um presságio bíblico. As pessoas fingem que tudo é normal — e talvez seja mesmo. Um homem armado de fuzil desce do morro e ninguém se abaixa. Já nos acostumamos à guerra não-declarada, à corrupção folclórica, aos tiroteios como trilha sonora do fim de tarde.
Outro dia, sentei-me num boteco para botar os pensamentos em ordem. Observei tudo ao redor com aquela melancolia de quem já entendeu que o Rio é, acima de tudo, uma experiência sensorial que mistura sal, sangue, maresia e desespero existencial em proporções caóticas. E mesmo assim, continua sendo uma cidade linda — daquelas belezas trágicas, semelhante a uma ex-namorada que ferrou a tua vida, mas que ainda te excita quando cruza a rua com uma saia justa.
À noite, a cidade se transforma. As avenidas ganham um erotismo suspeito, como se cada esquina escondesse uma caso de amor malsucedido.
Foi em uma dessas noites, há cerca de duas semanas, que passei pela Avenida Francisco Eugênio — aquela passarela de almas penadas — enquanto fazia uma ronda com o Sucatão — meu carro asmático e cheio de traumas — só para tentar cuspir fora o ranço de um dia miserável.
Se dei sorte o azar, não sei, mas lá estava ela: uma morena bonitinha encostada num poste como se esperasse o fim do mundo chegar em parcelas. Ao lado, um bando de garotas gritava e gargalhava como se tivessem engolido um viveiro de calopsitas em fuga.
Encostei o Sucatão naquele meio-fio fétido, onde o asfalto parecia estar derretendo em arrependimento e o cheiro era de um esgoto que decidiu pedir as contas do inferno para se instalar ali.
Baixei o vidro, chamei a garota. Disse se chamar Dulce — ironia é gratuita nessa vida. Sorriu com uma ternura materna, daquele tipo que te acerta como uma lembrança mofada: me veio à cabeça minha tia-avó, que vivia me dando lanternas de presente, como se pressentisse que eu acabaria vagando por essas noites sem luz, sem rumo, e com uma puta me assediando a cada curva.
Dulce não perdeu tempo com poesia. Lançou o cardápio da noite como uma garçonete cansada de servir bêbados: boquete, oitenta reais; pacote completo, cem. Simples, direto, quase uma oferta do dia. Perguntei onde seria o ritual, e ela, com a naturalidade de quem indica uma farmácia, apontou uma garagem ali perto — “a garagem da orgia”, um ponto tão conhecido que deveria ser um patrimônio tombado da cidade.
Entrou no carro como quem já conhecia, e seguimos em frente feito um casal suburbano indo pra Disneylândia — só que sem filhos, sem alegria e com o Mickey enforcado num canto escuro da alma.
Gozei. Simples assim. E para um velho como eu, isso é praticamente um milagre, uma ressurreição sem trombetas nem anjos — só um suspiro pós-apocalíptico. Durante três segundos, me senti menos cadáver. Depois, claro, veio o vazio. Sempre vem. É o que sobra quando o prazer vai embora e deixa a conta pendurada no criado-mudo da consciência.
Volto para casa sentindo que sobrevivi novamente. O Rio não é só a cidade maravilhosa, é um teste psicológico diário, um experimento social temperado com perigo e decoração tropical.
Vejo a lua sobre um viaduto, a mesma visão que Aldir Blanc cantou em versos, como se o universo quisesse me lembrar que, mesmo na decadência, há beleza. Uma beleza distorcida, embriagada, cheia de velórios e balas perdidas, mas beleza.
Deito e me preparo para outro round. Porque no Rio de Janeiro a gente não dorme — a gente se recarrega entre uma batalha e outra.