30 de Abril de 2025 às 21:20
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REPETECO

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Atualmente, entrar na Vila Mimosa me dá a estranha impressão de ter sido convidado para uma Festa Junina organizada no necrotério. Alguém claramente morreu, esqueceram o corpo num canto — talvez atrás da barraca do milho cozido —, mas mantiveram o som no último volume, com um funk proibidão que, em algum nível existencial, parece dialogar com a decomposição inevitável dos nossos tímpanos. É como se Kafka tivesse resolvido virar DJ e tocar no subúrbio do Rio de Janeiro depois de mais uma crise existencial.

O mais desconcertante é que há algo absolutamente funcional naquilo tudo. As luzes piscam, os copos plásticos circulam, homens suam, mulheres negociam e o ciclo da vida segue seu curso, só que com glitter, cerveja e uma espécie de luto disfarçado de hedonismo. Tudo parece perfeitamente orquestrado para a gente não se lembrar que está num lugar onde os sonhos chegam para morrer — ou pelo menos para dormir um pouco, enquanto você pergunta se aceitam cartão de débito ou crédito.

E eu ali, no meio daquele balé grotesco, pensando se seria possível contrair herpes apenas fazendo contato visual com o ambiente. Não que eu seja moralista, pelo contrário — já tive relacionamentos tão tóxicos que daria inveja a Chernobyl — mas há algo na Vila Mimosa que nos faz querer tomar banho de álcool em gel e depois se confessar com o padre da paróquia mais próxima.

Claro, talvez o problema seja meu. Sempre tive uma tendência a ver simbolismo onde só há decadência. Freud chamaria de projeção. Minha mãe chamaria de drama. E eu chamo de sábado à noite.

Não gosto mais de ir à Vila Mimosa. É um lugar que me inquieta — não como uma angústia, dessas que os franceses adoram colocar em preto e branco, uma cena de rodoviária mal iluminada às três da manhã. Tem algo ali que me desorganiza, como se cada esquina fosse um espelho torto de mim mesmo, só que mais embaçado, mais barato e com menos perspectiva de redenção.

E, no entanto, eu vou. Ainda vou. Sempre encontro um motivo que soa plausível o bastante para não soar como agonia — uma carência disfarçada de curiosidade antropológica, uma busca por “experiências literárias”, como se fosse Bukowski enfrentando os dilemas da velhice. Mas a verdade é mais difícil de encarar, porque ela exige coragem, ou terapia três vezes por semana.

Por que eu vou? É essa a pergunta que me persegue no caminho de volta, quando estou dentro do carro, olhando o reflexo cansado na janela, me perguntando se tudo isso não passa de uma lenta autoflagelação.

Evito supor que estou sofrendo de tendências suicidas — porque isso implicaria um nível de consciência trágica que eu definitivamente não tenho. Não sou Hamlet. No máximo, sou o tio dele, perdido no boteco, tentando entender o menu.

Mas sei que há algo errado. Uma insistência melancólica em retornar ao lugar que simboliza tudo que já deveria ter superado. É como tentar reconquistar uma ex-namorada que você nem gostava tanto, só tenta porque o vazio parece mais assustador que o tédio.

E então vou. Chego, caminho entre as barracas, ouço as vozes, sinto o cheiro de fritura misturado com desodorante vencido. E me pergunto: seria isso o inferno? Ou só mais um sábado em me esqueci de me amar?

E foi nesse estado de espírito — algo entre um existencialista preguiçoso e um romântico tardio — que ela apareceu.

Ela saiu de trás de um poste como se fosse parte do mobiliário urbano, usando uma blusa de oncinha dois números menores e segurando um copo de plástico com um líquido escuro que, espero, era só uísque. Cambaleou até mim como se flertasse com a gravidade. Tinha um cílio postiço preso na testa e um olhar vago, que parecia atravessar dimensões.

— Gato... você viu o Sérgio?

Pensei em dizer que não era gato e muito menos conhecia o Sérgio, mas ela já tinha me abraçado como se fôssemos namorados desde a Guerra do Vietnã.

— Você tem uma energia boa — disse ela, arfando um pouco, como se tivesse acabado de correr uma maratona.

— É... eu... acho que isso é só ansiedade misturada com aflição mesmo.

Ela riu. Um riso estranho, entre a sedução e o soluço. Depois começou a cantar, desafinada e emocionada, uma música do Calcinha Preta. No meio do refrão, fez uma pausa dramática:

— Sabe o que me disseram hoje? Que eu pareço a Juliette.

— A da Globo?

— É. Mas eu sou mais humilde.


E então, sem nenhuma cerimônia, adormeceu em pé, com a cabeça recostada no meu ombro e apertando com força o meu combalido pênis com uma das mãos. Ali mesmo, entre uma barraca de Hot Dog e um homem urinando atrás de uma Kombi com adesivo "Jesus é fiel".

Naquele momento, percebi o quanto tudo aquilo era ao mesmo tempo ridículo e profundamente trágico. Talvez, eu continue voltando à Vila Mimosa, não por desejo, mas por reconhecimento. Há algo de mim espalhado ali — nas rachaduras das calçadas, nas promessas não cumpridas, nos cílios perdidos das garotas bêbadas.

Ela ressonava agora, profundamente, como quem carrega o peso de várias histórias não contadas. Eu apenas fiquei parado, me equilibrando, com pena de acordá-la, tentando entender se isso era o clímax de mais uma comédia triste ou o início de um colapso que necessitaria chamar o SAMU.

Olhei ao redor e vi uma birosca aberta, iluminada por uma lâmpada amarela que piscava como um sinal de epilepsia divina. Conduzi a moça até lá — ou melhor, arrastei com certa delicadeza — e acomodei o corpo dela em uma cadeira de plástico, dessas que estalam quando você senta e nos fazem refletir sobre o índice de massa corporal.

Ela deixou a cabeça tombar sobre a mesa com a docilidade de quem já perdeu várias batalhas, mas ainda comparece ao campo de guerra por hábito. E eu, sem saber muito bem se era compaixão, culpa ou pura covardia emocional, enfiei cinquenta reais no bolso da blusa dela. Foi um gesto patético, desses que só têm valor simbólico para quem os executa.

Foi então que uma outra garota passou, mastigando algo que parecia um chiclete e usando uma sandália de pelúcia. Parou por dois segundos, olhou a cena com a naturalidade de quem já viu coisa pior e soltou uma sentença, alto o suficiente para que metade da rua ouvisse:

— Vivi não toma jeito.

Disse isso como quem comenta o tempo ou o preço do ovo — com uma leveza fatalista que só quem vive o absurdo diariamente consegue alcançar. Depois virou as costas e sumiu entre os flashes das luzes coloridas.

Eu, sem saber exatamente quem era Vivi — embora começasse a desconfiar que o nome da moça desmaiada fosse justamente esse — apenas balancei a cabeça com a dignidade de um rabino que perdeu o templo.

E saí dali. Sem olhar para trás. Em busca do Sucatão, que estava estacionado na rua Ceará, embaixo de um outdoor com um sujeito sorrindo e oferecendo plano funeral como se não tivesse visto nada.

Entrei no carro com a sensação de que tinha sobrevivido a mais uma noite, embora não tivesse certeza se isso era uma vitória ou apenas um intervalo entre derrotas. Liguei o motor, que respondeu com um barulho que parecia uma asma antiga. Acelerei como quem foge de um incêndio.

No fundo, eu sabia: voltaria algum outro dia. Porque há lugares que não nos pertencem, mas conhecem a nossa alma. E a Vila Mimosa, com seu caos sentimental, sua fauna noturna e suas epifanias embriagadas, é exatamente isso — um espelho malcriado da minha solidão com batida funk ao fundo.