30 de Abril de 2025 às 07:54
BEIJO

SIM - GOSTEI

ORAL

SIM - SEM CAMISINHA

ORAL COMPLETO

SIM

ANAL

NãO SEI

TAXA ANAL

R$0.00

REPETECO

NãO




Não era tão tarde assim, mas já passava das dez. E ninguém, com um mínimo de amor à própria pele, fica no Centro depois das dez — não se quiser chegar vivo ao réveillon de 2026. A cidade tinha aquele cheiro de fim de festa antes da festa começar. Um silêncio sujo, encolhido nas esquinas.

As ratazanas ficam tão à vontade quando escurece no Centro que, se tivessem língua, mandavam um "boa noite" e um "vaza daqui enquanto dá tempo". A noite no Centro do Rio não foi feita para homens. Foi feita para bichos — bichos que não querem saber de sol, que vivem melhor no breu, fedendo, mordendo, sumindo nas sombras.

O que eu estava fazendo ali? Deus do céu, nem eu sabia. Talvez eu nunca tenha sido homem coisa nenhuma, só um bicho, um maldito vampiro correndo atrás de algo que preenchesse essa fome antiga, essa fome por sexo, por toque, por qualquer ilusão que me lembrasse que ainda estou vivo. O problema é que o corpo não colabora mais. Estou velho. Sou uma lembrança em carne, um monumento abandonado. Mesmo assim, continuo. Porque bicho não pensa, bicho sente. E a alma, se é que existe, é só isso: instinto esfarrapado tentando sobreviver no escuro.

Sem grana para esbanjar, mas com a urgência de quem precisa de uma fêmea quente para apagar o frio da vida, para onde mais eu iria senão para o velho sobrado da Rua da Conceição, 116? Aquele lugar é um pacto mudo entre duas fomes: a do bolso pobre e a da carne faminta. Um dos endereços fixos do Diabo, porque ele não curte vista para o mar nem brisa fresca — ele quer janelas que abrem para o breu, para o que fede, para o que sangra devagar. Eu também. Gosto do escuro. É ali que eu existo de verdade. É ali que a máscara cai e sobra este sujeito esculhambado que sou, que evita o próprio reflexo.

Nunca entendi por que chamam aquilo de Bombeirinho. Talvez por ser o lugar onde a gente tenta apagar o fogo que arde por dentro. O nome ficou, é o que importa. É uma caverna, escura como todas as cavernas, povoada por figuras trêmulas, esfumaçadas, presas entre o cheiro doce de perfume falso e a acidez do álcool barato. Gente tentando se esquecer. Os bordeis são todos assim, mesmo quando tentam parecer palácios. Sob o brilho de espelhos rachados e lantejoulas de mentira, moram sempre os mesmos fantasmas — os nossos.

Ela me olhou de longe, como quem fareja fraqueza. As putas têm esse dom — farejam o desespero como tubarões sentem o cheiro do sangue. Me viu, sorriu com um canto de boca treinado e veio rebolando como quem sabe que vai vencer. Quando chegou perto, disse o nome com um sussurro ensaiado: Clarice. Claro que não era o nome dela. À noite, todos temos nomes de mentira, vidas de mentira. Mas foi a primeira vez que uma puta me disse se chamar Clarice — nome de escritora. Quase ri. Mas não ri.

Conversamos. Eu não queria nada demais — só um sexo rápido, uma descarga que me libertasse por uns instantes e depois voltar para o único lugar onde ainda me sinto inteiro: minha fortaleza da solidão. Meu refúgio. Minha jaula. No fundo, todos nós somos heróis da nossa própria história, lutando guerras invisíveis, escrevendo silenciosamente os épicos que ninguém vai ler. Eu já lutei batalhas demais. E, quando a luta vira rotina, ela também vira vício.

Subimos. Tudo ao redor fede a abandono e sujeira velha. Os quartos são cubículos imundos, e aquela cama estreita caberia perfeitamente numa cela de presídio onde homens esquecidos esperam o fim. Na alcova não existe papo, não existe romance — só existe ação, e tudo precisa ser rápido. Porque o tempo é dinheiro, e dinheiro é o único Deus verdadeiro naquela espelunca. Acredite, Forista sem Fé, ali ninguém se importa com suas emoções idiotas. Na casa do Diabo eles só querem o seu sangue, até a última gota. O seu gozo, eles limpam com desinfetante como se fosse uma gosma infecta.

Eu e Clarice cumprimos nossa parte do acordo feito lá embaixo, no meio do cheiro de cigarro e suor. Ela me aplicou um boquete e ejaculei em seu rosto. Depois nos despedimos rápido, como dois perdedores incapazes de se olhar nos olhos. Desci pela escada estreita, pisando naquele chão grudento, saindo para as ruas ainda mais mortas do que antes. Olhando aquela sujeira toda, aquele vazio, aquela merda urbana agonizando no escuro, era difícil acreditar que o Sol teria coragem de nascer de novo.

Sincronizei meus aparelhos auditivos com o celular e apressei o passo. Ainda dava tempo de pegar o metrô e atravessar a cidade sem precisar testemunhar a lepra traiçoeira que a consome. A música inundou meus ouvidos surdos e fez a trilha sonora que faltava.

DEPECHE MODE