08 de Março de 2023 às 10:42
BEIJO

SIM - GOSTEI

ORAL

SIM - SEM CAMISINHA

ORAL COMPLETO

SIM

ANAL

NãO SEI

TAXA ANAL

R$0.00

REPETECO

NãO




Se existo na noite, as manhãs são o meu jazigo...


A noite não é somente o cenário do libertino, o libertino é a noite, completa suas penumbras, reflete-se nas luzes de neon, caminha pelo manto noturno com a serenidade das criaturas que compõem suas entranhas. O libertino é um tipo de herói, todos os heróis existem para ofuscar os vilões e os vilões sempre anseiam pelo protagonismo que jamais alcançam. Coadjuvante frustrado e medíocre, que imagina se destacar se seguir a trilha do mal, é o vilão que cria a glória inabalável do herói. O libertino é uma sombra que brilha.

The Dark Knight

Sofro de insônia crônica, como se isso não bastasse para tornar as minhas noites jornadas infinitas, também sou invadido por ondas de ansiedade que me empurram para as ruas plenas do silêncio da madrugada. Passei a chamar isso de “Síndrome do Morcego”, talvez seja esse desvio psicológico que me faça ter predileção por roupas escuras, ser de poucas palavras, não temer a escuridão, gostar das tabernas e inferninhos onde personagens como eu habitam. Por esses dias, um taxista me contou que um novo ponto de prostituição crescia no entorno de um endereço onde há anos fervilhava uma boate chamada Termas 73, no Estácio. Em seus tempos áureos, o estabelecimento se anunciava em outdoors por toda a cidade. O sexo pago me cansa a alma, mas a aventura da descoberta me renova.

Acionei o motor do Sucatão, pisei no acelerador e cruzamos os vazios sombrios da rua Conde de Bonfim em direção ao final da Haddock Lobo, onde o bairro do Estácio finda e principia. É um lugar feio, lúgubre, perdido como uma ilha esquecida no triângulo entre a Tijuca, o Centro e o cemitério do Catumbi. Não faz muito tempo, se avizinhava a um presídio, hoje é como se fosse uma breve faixa de areia às margens da oceânica comunidade do São Carlos. Estacionei no início da rua Aristides Lobo, há uma boemia singular que povoa os pés-sujos que norteiam a vida rarefeita da região quando anoitece. Na ladeira que leva ao morro, motoboys sobem e descem como pêndulos de relógios ancestrais.

Segui as coordenadas que me foram transmitidas pelo taxista e encontrei um botequim corroído pelos anos e pela desatenção do proprietário, gente feia, gente estranha espalhava-se pelas mesas de rua e pelo balcão. Foi na parte interna que avistei mulheres, algumas negras, morenas e uma ruiva. Sim, uma ruiva de pele alvíssima, foi ela que despertou meu interesse, tão atraente que a dúvida em saber se era ou não garota de programa me inibiu na tentativa de uma aproximação imediata. Cercada por uns três homens, prováveis moradores da comunidade, a situação me oferecia diversos obstáculos. Faltava-me o elixir que completaria a minha transformação.

— Por favor, tem Salinas? — pedi ao sujeito gordo que atendia no balcão.

— Não — respondeu-me seco.

— Tem alguma cachaça artesanal aí?

— Não.

— Qual cachaça você tem?

— Tem 51, tem catuaba...

— Faz assim, mistura uma dose de 51 com catuaba.

A impressão que tive é de que o copo veio envolto em vapores. A noite estava fumegante, meu corpo enxarcava-se por debaixo da roupa, mas todo aquele calor temperava os desejos e a sede de sexo. Bebi a primeira dose em uma única golada, minhas pupilas devem ter se dilatado bruscamente, um clarão tomou conta dos meus olhos como se eu estivesse testemunhando a origem do universo. A ruiva continuava interditada pelos três marmanjos que rodeavam a mesa, duas outras meninas chegaram festivas e integraram-se ao grupo. Eu partia para a segunda dose da minha fórmula etílica composta por 51 e catuaba, dois elementos tão perigosos que não constam da tabela periódica. Meu corpo queimava com a mesma intensidade de um coquetel Molotov. Ouvi uma voz gritando um nome de mulher do lado de fora do bar.

— Bianca. Bianca.

A ruiva se levantou, meus neurônios deduziram que Bianca era o seu nome. Da calçada, uma senhora grisalha acenava com um maço de cigarros, Bianca foi buscá-lo. A minha chance estava ali, movimentei-me com o copo na mão e fiquei à espreita na metade do caminho por onde eu presumi que ela retornaria. Teria que ser um único golpe, um ataque soviético, como uma fera que calcula a mordida na jugular da presa. Bianca pegou o maço, girou o tronco para retornar à mesa em que estava, por um segundo pareceu me olhar de relance, saltei em sua direção...

Quando comecei a escrever nos fóruns sobre sexo pago, custei a compreender que é um universo pouco criativo, é um território onde os homens demonstram falta de ousadia, pagam para não precisarem se embrenhar em incursões mais arriscadas. Não é à toa que, por isso, muitos sentem dificuldade na assimilação dos meus relatos, eu sou cria da noite, das sombras, dos riscos, dos roteiros de degustação sexual. Imagine um homem casado, afastado há anos de qualquer atividade boemia, como poderia se projetar nas minhas histórias? Improvável.

Quando Bianca atravessou a minha posição, toquei em seu braço e balbuciei uma proposta.

— Eu queria conversar com você. É importante.

A garota me olhou com expressão de surpresa, mas continuou a caminhar em direção à mesa em que estava com o grupo de marmanjos. Acompanhei sua rota e observei que ela cochichou algo para um dos rapazes, não demorou muito para que ele se erguesse e viesse ao meu encontro.

— Tio, a menina está comigo. Fica feio chegar nela, pro senhor e pra mim. Segura tua onda — o rapaz me enquadrou.

Agi como um cavalheiro, pedi desculpas e me justifiquei alegando que não havia percebido que ela estava acompanhada. O garoto voltou para a mesa e eu, por prevenção, vazei do boteco. Antes de sair, perguntei ao balconista se existia nas redondezas algum bar com meninas acessíveis, o sujeito entendeu o que eu procurava e me indicou um bar na rua Maia Lacerda. Certamente, esse foi o recomendado pelo taxista. Suando pelo efeito da cachaça, cumpri o percurso que me levaria ao objetivo final.

O balconista, vendo que eu deixava o local, me gritou o nome do bar procurado.

— É o Bar da Camisinha.


Somos uma criação que nasce da patética e desesperada corrida entre espermatozoides rebolando desengonçados em direção ao óvulo, correm como se avistassem um grande prêmio, mal sabe o vencedor das desditas que o aguardam. O útero não é a saída, é a armadilha.

Fui caminhando acelerado em direção ao Bar da Camisinha, que tem endereço rua Maia de Lacerda, o silêncio e as sombras do trecho que precisei percorrer causariam arrepios nos pentelhos mais destemidos. Durante o trajeto, me recordei de que a Rua Maia de Lacerda foi cenário muitos pernoites que fiz com uma puta de Madureira em tempos remotos, ali ficava o sofisticado Motel Halley, um dos poucos motéis que fecharam no Rio, talvez por ser localizado em uma região temerária.

O Bar da Camisinha fica quase na esquina com a Haddock Lobo, em frente a ele existe um posto de combustível, a rua é penumbrosa. O tal bar é um pé-sujo, mesas na rua, frequentado por cachaceiros, gente feia e mulheres com intenções duvidosas. Atravessei a pequena multidão que se aglomerava em frente ao boteco para tentar alcançar o balcão e pedir uma bebida.

— Tem Salinas? — questionei.

— Só Velho Barreiro — responde-me um sujeito de farto bigode e sotaque nordestino.

— Desce o Velho — pedi.

De pé, com a barriga encostada no balcão, fiquei contemplando e tentando me ambientar. Nenhuma das mulheres que estavam presentes me atraiu e eu começava a me sentir cansado, coisas da idade. Talvez, eu estivesse bem-vestido demais para o lugar tosco e atraí a curiosidade de um dos pinguços que usava o balcão como o náufrago que se agarra a uma tora flutuando no oceano.

— Boa noite, senhor. Desculpe perguntar, mas o senhor é carioca? — terminou a frase com um soluço.

— Sou gaúcho.

— Porra! Gaúcho?! Tem cara de paulista.

Antes que o papo de bêbado se estendesse, me afastei um pouco fingindo procurar alguém. Foi quando uma melodia em alto volume rompeu o burburinho da calçada, vi que havia uma espécie de DJ dentro do botequim e o som que cruzou meus ouvidos vinha na voz de Nelson Gonçalves: Nada além de uma ilusão...

NADA ALÉM

Um grupo de coroas começou a dançar de rosto colado, clima de romance aos pés do morro de São Carlos. Dei uma cantarolada, tentei relaxar, mas reparei que o pinguço que cismou que sou paulista me encarava sem trégua, aquilo me preocupou, fiquei desconfortável. Não demorou muito para que o sujeito se aproximasse novamente. Iniciou o diálogo após arrotar.

— Ô, paulista... tu curte um cu cabeludo?

Foi a gota d’água, respondi que estava esperando a minha esposa e me posicionei no lado oposto em que o pinguço estava. A simulação de DJ emendou com outra música cantada pelo Nelson Gonçalves, um grupo de idosos que estava sentado em uma mesa colocada no asfalto foi ao delírio.

DEUSA DO AMOR

Respirei fundo, virei o segundo copo de Velho Barreiro e o milagre aconteceu quando eu me preparava para entregar os pontos, Bianca surgiu no Bar da Camisinha acompanhada somente de uma outra mulher. Embriagado, com a vista turva e apavorado com o pinguço do cu cabeludo, não evitei o sorriso carregado de uma renovada esperança. Neste momento, o som mudou radicalmente e o aspirante a DJ meteu Santana estourando nas caixas.

SANTANA

Não era o fim... Dancinha


FINAL

A vida é este despencar em um rio furioso, embarcados numa canoa frágil, hora contra, hora a favor de uma caudalosa correnteza. Um hiato de meses antes de retornar a este relato. Não o concluí, talvez porque tenha restado somente a última parte, justamente o momento em que o sexo se concretiza; desapareci talvez porque eu tenha amado alguém nesses meses de ausência, o amor é uma alheação da realidade. De todos os relatos que leio, a parte mais desinteressante para mim é a consumação do sexo, todas as histórias se igualam nesse ponto, numa repetição entediante de performances, salvando-se raríssimas exceções.

O forista pertence a espécie do “Dândis Erectus”, é um macho indevassável, hetero até às mais profundas entranhas, imune ao fio terra e raramente faz concessão ao beijo grego. Faz sexo agendado, monitorado por um cronômetro que marca início, meio e fim. O que poderia ser mais enfadonho? No entanto, foristas se consideram o suprassumo da experiência sexual.

Garotas de programa convencionais, por sua vez, são coreografias mornas, reprisando o mesmo bailado num ciclo infindável, emitindo orgasmos cansados, confundindo as faces masculinas com batatas em uma gôndola do supermercado, todas iguais e maçantes. A única relação em comum entre a garota delivery e o cliente é a estranha similaridade de se considerarem únicos diante da pavorosa mesmice que habitam.

É possível que, por isso, eu prefira o divergente, o incomum. Prefiro a caça aleatória das ruas, das boates, das descobertas, dos riscos, das novidades que aceleram o coração. Entrar em uma sala onde a prostituta me espera já ansiosa pelo fim do encontro não é diferente de entrar em um frigorífico e escolher a carne para o churrasco. É frio, congelante. Imaginar que comigo seria diferente, que haveria sensação de exclusividade, é um delírio digno de camisa de força.

A introdução explica o porquê da minha presença no Estácio, um bairro envolto em penumbras, cenário do assassinato da Marielle Franco, pontilhado de botecos marginais nas franjas periféricas da rua Haddock Lobo. Largo da Segunda-Feira, Rio Comprido, Estácio, tudo para mim é a Tijuca em degradê. O Largo do Estácio é a Praça Varnhagen em preto e branco.

Quando me viu no meio da muvuca, Bianca me reconheceu, mas não se aproximou. Confirmando que ela não estava escoltada pelo grupo de rapazes, respirei coragem e me aproximei dela.

— Agora posso pagar uma bebida? — perguntei

A menina sorriu.

— Você não desiste, heim. Quero uma Ice — exigiu sem cerimônia.

Conversamos, acariciei seu braço para emitir sinais físicos de interesse, ela colou mais em mim demonstrando receptividade. Vagou lugar em uma mesa, sentamos, a mulher que a acompanhava desapareceu. Depois de tantas doses de cachaça, eu não estava mais ébrio, pairava entre um limbo cósmico, fronteira da consciência com a inconsciência absoluta. A triste verdade é que eu não estava mais em condições de comer ninguém. Misturar cachaças me lançou a condição de trapo humano.

Não sei bem como aconteceu, mas, de repente, senti algo gelado sobre a minha nuca, alguém me esfregava um cubo de gelo no pescoço. Abri os olhos, Bianca me contou que eu simplesmente deitei a cabeça sobre a mesa e apaguei. Perguntou-me se eu era alcoólatra. Não, definitivamente não, bebo no lazer — não poderia dizer que bebo socialmente naquele estado de pré-coma em que me encontrava.

— Você mora onde? — me questionou.

— Tijuca.

— Vamos para a sua casa. Mora sozinho.

— Sim, moro só. Podemos ir...

— Mas você vai me dar quanto? — foi direto ao assunto.

Olhei a minha carteira diet e encontrei somente 150 reais. Mostrei a ela.

— É o que tenho — confessei.

— Está de carro?

— Estou.

Explicar como consegui conduzir o Sucatão até o meu chalé nos alpes tijucanos seria impossível, dado ao meu estado de semiconsciência, o que posso dizer é que obtive êxito. Quando entramos na minha casa, lembro-me de Bianca dizer que eu tinha bom gosto.

— Tem café? Vou te fazer um café — a menina foi atenciosa.

Voltou com a xícara cheia do líquido escuro fumegando. Bebi. Ela ordenou que eu tirasse a roupa, se despiu e revelou seu corpo jovem, com seios de quem amamentou.

— Tem filhos? — perguntei.

— Tenho dois. E você?

— Não tenho filhos.

— Nossa! Que coisa rara.

Quando pisquei os olhos, sua boca abocanhou meu combalido pênis. É provável que a bebida tenha me deixado mais sensível, pois gozei jatos que dariam para lavar um carro. Bianca engoliu toda a minha seiva.

Deitamos, ela me abraçou, um abraço aconchegante. Adormecemos, mas logo a claridade discreta anunciou o novo dia. Bianca me disse que precisava ir, paguei um táxi e ela se foi.

A vida é um rafting. Voltei a dormir e acho que não sonhei. Girl9