BEIJO
SIM - GOSTEI
ORAL
SIM - SEM CAMISINHA
ORAL COMPLETO
SIM
ANAL
SIM
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
SIM

Desde o início, a vida é uma partida.
Riso, choro, velas e despedida.
O parto são duas mãos que se afastam,
Cordão de duas pontas que se gastam.
Navegar nunca tem volta, é ida
Sem norte nem rota estabelecida.
Rompe as ondas geladas que o arrastam
Sob um céu de estrelas que nunca bastam.
Zeus é só uma bússola emperrada,
É a lenda vulgar e mal contada
De um pescador pelo mar afora.
Ulisses sem a Ítaca ansiada,
Ouve a sereia que canta encantada,
Seu nome é melodia: Isadora.
Certo dia, um desses personagens sem relevância afirmou que o velho Dante faz do fórum sobre sexo pago um diário íntimo. O personagem irrelevante, mergulhado na insensibilidade típica dos sem talento, nunca percebeu que não escrevo com as mãos, escrevo com a alma. Faz parte do espírito medíocre invejar a grandeza que não alcança. Quer aprender a escrever? Concentre-se em si mesmo e permita que a inundação das palavras nomeie todas as suas sensações. É o que farei agora. Não se afobe, o sexo acontecerá no final.
Último dia antes das férias da Isadora, me despenquei de táxi da bucólica Tijuca para o Centro da Cidade, cismei que deveria enviar flores para ela, flores que marcassem o fim e o recomeço. Eu sabia que não conseguiria vê-la naquela tarde, a agenda estava lotada. Ser o par de uma mulher desejada não é fácil, além da luta contra o ciúme, é preciso aceitar a oportunidade possível.
Tento compensar o tempo que peço a ela na medida das minhas possibilidades financeiras, mas não posso compensar o tempo de todos os outros que também a querem. Espremido entre os seus muitos encontros, restrito ao seu expediente, as horas em que ficamos juntos sempre me pareceram o período de uma vida inteira, é assim que conseguimos compartilhar algumas aventuras.
Caminhando em passos rápidos, encontrei uma floricultura, escolhi o buquê mais caro e exuberante da loja, escrevi um cartão e pedi urgência ao entregador. Não sabia se ela teria cliente ou não no momento de receber a encomenda, me arrisquei à inconveniência.
Eu precisava enviar as flores, precisava que as cores de cada pétala invadissem seus olhos, colorissem o seu último dia, reconfortassem o seu cansaço. Imaginei que ela ficaria feliz, que se surpreenderia. Eu não poderia beijá-la nem ter seu carinho naquele dia, mas buscar e escolher aquele buquê de luz fazia com que eu sentisse a presença dela em mim.
Ela recebeu, me mandou mensagem agradecendo, confirmou que infelizmente não poderia me ver, mas me avisou que levaria as flores para casa. Fiquei feliz e triste, porque o afeto quer a presença.
As semanas voaram, Isa retornou das férias e me ligou, perguntou se eu poderia vê-la na terça-feira, desejo vê-la todos os dias. Pediu-me um favor, que eu comprasse uma torta e uma vela de festa, ela planejava surpreender no aniversário de uma pessoa querida.
Larguei tudo o que estava fazendo, me embrenhei pela amplidão tijucana, comprei a melhor torta, peguei a vela e parti para o Centro carregando as encomendas com a alegria de um adolescente que cumpriu a tarefa que faria feliz a mulher que elegi como rainha.
Ouvi sua voz dizendo que a porta estava aberta, entrei e coloquei a caixa da torta sobre a mesa. Talvez, por alguma indisposição ou ansiedade, ela não me beijou nem me abraçou quando cheguei, mas Isadora é sempre uma visão de beleza, é sempre uma presença que inspira, independente da recepção que oferece.
Há uns dois anos, minha vida se tornou escura pelas perdas irreparáveis que sofri e Isadora surgiu como alguém que iluminou as sombras em que mergulhei. Da minha parte, tento fazer o mesmo por ela.
Vivemos em um mundo interconectado que não constrói mais pontes, nos bloqueamos nas redes sociais, no WhatsApp, no celular. Hoje, é mais fácil derrubar as pontes do que as construir ou reconstruí-las. Somos impacientes, intransigentes. Temos ânsia em condenar, não em perdoar. Queremos dar a última palavra, jamais ouvir a última palavra. Queremos ter razão, não queremos dar razão. É um mundo árido e o mundo em que pagamos por sexo é ainda mais drástico e repleto de interesses que passam longe do verdadeiro afeto.
Com Isadora, eu quis erguer algo diferente, não almejei ser apenas um cliente, quis ser um companheiro de jornada e tive dela a mesma consideração.
Todos os dias um “bom dia”, todas as noites um “boa noite”. Com isso, meu dia amanhece quando Isa o anuncia pelo celular e a noite se insinua quando a mesma Isa me avisa que irá dormir. Quanto sentido encontramos em atitudes tão pequenas, gestos mínimos podem ser tesouros de valor incomensurável.
Mas o que tudo isso tem a ver com um relato sobre sexo, velho Dante? Para mim tem tudo a ver, estimado forista. Há muito que não busco somente um corpo, procuro o privilégio da boa companhia; minha libido não exige somente o orgasmo da carne, mas também o prazer da convivência e o alimento para o intelecto.
Eu e Isa somos polos opostos, somos o curto e o circuito, somos um desafio mútuo, um duelo implacável e quase diário. Raramente nos entendemos, mas tentamos nos compreender; estamos sempre em conflito, sem nunca desistir de um acordo de paz; lançamo-nos em uma luta livre, mas antes do nocaute abrimos os braços para o abraço. A frase que mais usamos é “me desculpa”. Somos dois divergentes que tentam convergir, às vezes.
Há romance nisso, Dante? Romance é toda relação que nos ensina, forista sem fé. É a vontade de perdoar e o desejo do perdão. É estar longe encontrando motivos para se sentir perto. É compreender os defeitos mais mesquinhos na crença de que podemos nos reinventar juntos, nos reerguer como indivíduos melhores.
Posso ser mais um na rotina da Isadora, mas tento me convencer de que sou único e me esforço para que ela se sinta única ao meu lado. Sim, tudo isso é uma utopia, mas sem a utopia por que iríamos querer evoluir?
Depois de conversarmos e degustarmos um café, Isadora me puxou para diante do espelho, se colocou à minha frente, começou a rebolar o corpo nu no meu corpo em chamas. Beijei seu pescoço, apertei seus seios, levei meus dedos à sua boceta encharcada de mel. Ela se deitou, deitei-me ao seu lado, beijei sua boca, chupei sua língua, esfreguei meus dedos em seu clitóris, os beijos ficaram mais profundos, o corpo dela vibrava em descargas elétricas e eu me afogava como um náufrago em sua boca. Ela gozou enquanto eu a contemplava em um silêncio que revelava aos gritos a minha paixão.
O relógio exigiu que nos deixássemos. A escolha certa pede esforço, a escolha fácil se resume a desistir, sou um desses cabras difíceis de se render. Toda despedida pode ser o fim ou a promessa de um reencontro que nos tornará melhores e mais unidos. Ave, Isadora.