A MULHER MARAVILHA E A SUA IMPLÍCITA PSICOLOGIA E FEMINISMO
Década de 40, período em que o mundo vivenciava o segundo maior conflito bélico protagonizado pelas mais expressivas economias do planeta e imerso em diversas transformações e movimentos sociais, a indústria dos quadrinhos se encontrava em franca ascensão, e criou na oportunidade o Superman, Capitão América, Batman, Aquaman, Lanterna Verde e o Flash. Estórias de batalhas do bem contra o mal não era apenas para crianças: os homens alistados pediam gibis em grandes quantidades. Na verdade, um quarto de todas as revistas que os militares receberam durante a guerra eram de estórias em quadrinhos.
A Mulher Maravilha foi apresentada pela primeira vez em uma edição de 1941 da All-Star Comics, mas suas origens podem ser rastreadas até um laboratório de psicofisiologia iniciado por William James.
Enquanto o Superman foi criado por um par de jovens fãs de ficção científica e o Batman foi criado pelo cartunista Bob Kane, a Mulher Maravilha teve uma história de origem totalmente diferente: ela foi fruto da imaginação de um cientista psicológico treinado em Harvard.
Mas para conhecermos de fato a origem dessa icônica personagem é necessário um breve conhecimento da biografia do seu criador: William Marston.
Embora William Moulton Marston (9 de maio de 1893 - 2 de maio de 1947) tenha morrido bastante jovem, com apenas 53 anos, ele coletou uma lista impressionante e incrivelmente variada de realizações: ele era advogado, psicólogo, criador do sistema DISC de classificação de personalidade, inventor de uma versão inicial da máquina detectora de mentiras e criador da emblemática personagem Mulher Maravilha.
Criado em Massachusetts, Marston se formou em Harvard, obtendo um BA em 1915, um LLB em 1918 e um PhD em psicologia em 1921. Nos dez anos seguintes, Marston trabalhou na academia, lecionando na American University e na Tufts University, e desenvolveu sua versão da máquina de polígrafo - inventada em 1921 por um estudante da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Enquanto lecionava na Tufts, Marston conheceu Olive Byrne, uma ex-estudante de graduação que se tornou sua assistente de pesquisa em seu trabalho no polígrafo.
Depois que a esposa de Marston, Elizabeth, disse a ele que, quando ficava louca ou excitada, sua pressão arterial começava a subir, Marston percebeu que havia uma correlação entre mentir e pressão arterial. Ele passou a inventar o teste de pressão arterial sistólica, que usava medidores de pressão arterial e um estetoscópio para medir a pressão arterial intermitente durante o interrogatório, e aparentemente revelava mudanças quando o sujeito estava deitado. Este foi o primeiro detector de mentiras funcional.
Em 1923, Marston tentou sem sucesso que sua máquina fosse admitida como prova nos tribunais. Marston também viu um futuro para a máquina no campo do amor e do crime, e até mesmo viu a máquina como uma ferramenta de psicoterapia, alegando que ela revelaria segredos subconscientes dos quais o sujeito desconhecia. Ele relatou o sucesso de seu dispositivo na solução de problemas domésticos - por exemplo, ele afirmou que dois jovens noivos foram revelados como apaixonados pelo detector de mentiras e foram capazes de perceber seus sentimentos e se casar como resultado.

Durante esse tempo, e por anos depois, Marston continuou seu próprio trabalho como psicólogo, desenvolvendo sua Teoria DISC. A Teoria DISC é um sistema de classificação de personalidades avaliando a maneira como se comportam em uma situação favorável ou antagônica: as categorias de comportamento são dominância, influência, submissão e conformidade. Marston escreveu ensaios sobre psicologia popular e, em 1928, publicou Emotions of Normal People - seu livro explicando a teoria do DISC. Uma das descobertas de Marston foi uma diferença de comportamento entre os gêneros: ele afirmou que seus experimentos psicológicos provaram que os homens eram mais inclinados a se submeter em situações de amor, enquanto as mulheres eram mais inclinadas a induzir.
Ao longo dos anos 30, Marston tornou-se uma figura pública conhecida: em 1938, ele até apareceu em anúncios da Gillette alegando que o detector de mentiras provava que as lâminas de barbear Gillette eram melhores do que os concorrentes. Ele também foi frequentemente apresentado na Family Circle Magazine, entrevistado por uma jovem funcionária chamada "Olive Richard" (na verdade, um pseudônimo de Olive Byrne, ex-aluna de Marston). Um artigo, intitulado “Não Ria dos Quadrinhos”, foi publicado em 1940 - neste artigo, Marston descreveu que viu um alto potencial educacional nos quadrinhos. O editor de quadrinhos Max Gaines viu o artigo e contratou Marston como consultor educacional para a All-American Publications, que logo se fundiria com outra empresa para formar a DC Comics.
Um ano depois, Marston escreveu sua própria estória em quadrinhos, criando a personagem Mulher Maravilha em um papel convidado no All-Star Comics # 8 de 1941 sob o pseudônimo de “Charles Moulton”. Marston esperava criar uma super-heroína feminina tão forte quanto suas contrapartes masculinas, mas com inteligência, bondade e o fascínio de uma bela mulher.
Ele deu a ela um detector de mentiras na forma do mágico “Laço da Verdade”, que impelia qualquer pessoa presa a dizer a verdade. Mulher Maravilha era imensamente popular e logo estrelou seu próprio quadrinho. Assim como ele se concentrou na dominação e submissão em seus estudos de psicologia, Marston estruturou o universo da Mulher Maravilha com essas mesmas categorias: ela e os outros personagens da série estavam constantemente sendo amarrados, acorrentados, aprisionados e algemados.
Isso era um indicativo da filosofia moral de Marston - que é preciso se submeter à verdade para encontrar a liberdade: o próprio laço de ouro era um instrumento tanto de dominação quanto de libertação.
“Finalmente, em um mundo dominado pelo ódio e pela guerra dos homens, surge uma mulher para quem os problemas e proezas masculinas são meras brincadeiras de criança – uma mulher cuja identidade é desconhecida de todos, mas cujos feitos sensacionais são excepcionais em um mundo em rápida transformação”, escreve William Moulton Marston nas primeiras linhas de Introducing Wonder Woman, eistória que apresentou a personagem ao mundo, no gibi All Star Comics, uma espécie de almanaque de heróis da DC Comics.
A comparação com os homens continua no mesmo quadrinho. “Com força e agilidade cem vezes maiores do que as dos nossos melhores atletas e mais fortes lutadores, ela vem do nada para vingar uma injustiça e consertar as coisas”, diz o criador da personagem, que assinava Charles Marston e também se valia de uma mistura de mitologia grega e romana para defini-la. “Tão amável quanto Afrodite, tão sábia quanto Atena – com a velocidade de Mercúrio e a força de Hércules –, ela é conhecida apenas como Mulher-Maravilha. Mas quem ela é de onde ela vem ninguém sabe.”
Não foi difícil para Marston erigir uma heroína tão poderosa – ou empoderada, para usar um termo caro aos dias de hoje – quando convidado pelo amigo Maxwell Gaines a criar um personagem de gibi, mídia que ele via como veículo pedagógico.
Ex-aluno de Harvard que viu a luta das mulheres pelo voto e a maneira como o mundo masculino, incluindo a importante instituição onde estudava, as repelia, Marston era, ele próprio, um feminista. Precoce se comparado a muitos de seus contemporâneos,
reconhecia o enorme potencial das mulheres. Mais que isso. O garoto que se matriculou em direito e acabou se tornando psicólogo e cineasta
achava que as mulheres eram superiores, porque eram capazes de compaixão, uma das características que Diana carregaria com ela. E que os quadrinhos eram uma forma de preparar os adolescentes para a inevitável ascensão feminina.
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William Moulton Marston acreditava que as mulheres eram superiores aos homens e logo iriam dominar o mundo. Ele viu nas revistas em quadrinhos um veículo para levar suas teorias aos mais jovens. Diana foi criada para demonstrar a força, o poder e a compaixão das mulheres.
A intenção era, primeiro, acostumar os meninos à ideia de que as mulheres eram mais fortes e poderosas, e assim facilitar a implantação do matriarcado; segundo, inspirar as meninas a se tornarem fortes e poderosas, para que pudessem dominar o mundo”, diz o americano Tim Hanley, pesquisador que assina o livro Wonder Woman Unbound: The Curious History of the World’s Most Famous Heroine (editora Paperback, Mulher-Maravilha Desvendada: A Curiosa História da Super-Heroína Mais Famosa do Mundo, em tradução livre).
Durante todo esse tempo, Olive Byrne estava morando com Marston e sua esposa Elizabeth, no que parecia ter sido um relacionamento poliamoroso. Ambas as mulheres tiveram dois filhos com Marston, e Elizabeth até deu o nome de Olive à própria filha, assim como adotou formalmente os filhos de Olive. Pete, filho de Marston e Elizabeth, disse que a situação era maravilhosamente feliz.
Pete Marston também sugeriu que foi ideia de Elizabeth criar uma super-heroína, depois de saber que seu marido queria escrever uma história em quadrinhos. Elizabeth Marston era uma mulher forte, formando-se em psicologia e direito e trabalhando para sustentar a família. O próprio Marston atribuiu aspectos da Mulher Maravilha a Olive, em outra entrevista do Family Circle publicada em 1942:
embora presumivelmente mantendo o disfarce de que ela era apenas uma repórter e não sua amante, ele a chamou de sua "Mulher Maravilha" e disse que suas pulseiras (os de prata que ela parece ter usado sempre foram a inspiração para os punhos defletores de balas da Mulher Maravilha).
William Moulton Marston é, de fato, um personagem à parte. Além de adepto do feminismo,
era a favor do sadomaquismo muito antes de o mundo sonhar com a sua versão adocicada em Cinquenta Tons de Cinza, e do amor livre trinta anos antes de os hippies o abraçarem com suas flores e roupas rasgadas. Marston vivia uma relação poliamorosa com duas mulheres, ambas expoentes do feminismo e ligadas às sufragistas americanas. Elizabeth Holloway, sua esposa, financiou sozinha a sua graduação em direito, em uma época em que poucas mulheres iam à faculdade. Ela trabalhou junto a Marston na criação do detector de mentiras, outra invenção do psicólogo. Já Olive Byrnes, a inspiração para Mulher-Maravilha,
era ligada ao movimento de controle de natalidade. Sua mãe e tia a abriram a primeira clínica de planejamento familiar nos Estados Unidos, onde Olive trabalhou a vida toda. Os três viviam juntos, e criavam quatro filhos, dois de cada uma.
Marston morreu repentinamente de câncer em 1947, mas Elizabeth e Olive continuaram a criar seus filhos juntas e foram parceiras até a morte de Olive no final dos anos 80. Mulher Maravilha tem sido publicada continuamente desde sua criação (e é um dos únicos três personagens da DC Comics para os quais isso é verdade).
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É claro que mulheres comuns não têm superpoderes, mas a personagem as encoraja”, diz Hanley, em uma entrevista.
O personagem de Marston influenciou diretamente o movimento feminista. Os superpoderes da Mulher Maravilha vêm de sua habilidade especial de amazona de transferir a enorme quantidade de energia mental em força física. Em 1972, Gloria Steinem lançou a revista Ms. com uma versão grandiosa da Mulher Maravilha na capa.
“A personagem incentivou as mulheres a se envolver com os esforços de guerra. Regularmente, Diana aconselhava outras mulheres a ocupar cargos auxiliares oferecidos no serviço militar ou qualquer outro minimamente envolvido com a guerra.
Moulton Marston também apreciava a ascensão da força de trabalho feminina. Ele acreditava que, quanto mais as mulheres experimentassem fazer parte de um local de trabalho, mais teriam autoestima e confiança, e mais próxima estaria a revolução do matriarcado.”
Fator que pode levar feministas a rejeitá-la, a Mulher-Maravilha é, como outras heroínas dos quadrinhos, bastante sensual: um corpo cheio de curvas, coberto por roupas que parecem ter um número a menos. Em seus 80 anos, ela teve apelo mais ou menos sexual de acordo com o desenhista que a assinava, mas nunca deixou de ser sexy, desde o traço de Harry G. Peter, parceiro de Marston na criação de
Até isso era parte do plano do psicólogo, que era também cineasta, de difundir os seus ideais: a sensualidade era um recurso, na opinião dele, para fisgar leitores e submetê-los aos seus pensamentos.
Mas apesar de décadas de início do movimento feminista global, ideal defendido pela mulher maravilha desde o longínquo ano de 1941, ainda há consideráveis desafios no horizonte do universo feminino. Dados da ONU apontam que apenas 50% das mulheres em idade de trabalhar estão representadas na população economicamente ativa no mundo. Os homens representam 76% dessa força de trabalho. A esmagadora maioria das mulheres trabalha na economia informal, sustenta o trabalho de cuidados em casa e está concentrada em empregos com menor qualificação e que pagam salários mais baixos, tendo pouca ou nenhuma proteção social, ademais em torno de um quarto do contingente feminino a partir dos 15 anos são vítimas de violência de gênero.
Os recentes levantamentos no nosso país apontam uma proximidade com esses números - Uma em cada quatro mulheres foi vítima de algum tipo de violência na pandemia – Fonte: Datafolha.
Segundo essa mesma pesquisa, 73,5% da população acredita que a violência contra as mulheres aumentou no último ano e 51,5% dos brasileiros relataram ter visto alguma situação de violência contra a mulher nos últimos doze meses.
No Brasil, a maior conquista dos direitos das mulheres foi a sanção da Lei Maria da Penha, em 2006. A lei cria mecanismos para coibir a violência doméstica e contra a mulher, como o afastamento do agressor do lar, a proibição do contato entre ele e a mulher agredida, além de penas maiores. O nome da lei é uma homenagem a mulher que sofreu violência em casa por 23 anos: o marido tentou matá-la duas vezes, mas Maria da Penha se tornou um símbolo da luta feminina no país.
Não obstante toda a psicologia e filosofia inerente ao estereótipo feminino representado na personagem da mulher maravilha ter sido estudado e promovido em todas essas décadas, o feminismo perde a sua essência quando assume um corpo identitário, e não universalista, pois para que haja a necessária transformação social, torna-se mister incorporar os reais valores humanos.
Mulheres: Uni-vos e transformem-se em um exército de mulheres maravilhas.
Mil beijos e flores para todas vocês.
Não tenho medo de nada. Temos que ensinar o medo a ter medo de nós.
Elza Soares
A história secreta da Mulher-Maravilha Capa comum – 29 maio 2017
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A psicologia da Mulher-Maravilha: Descubra as virtudes da maior super-heroína que conhecemos e por que ela deve ser a grande inspiração para toda a humanidade Capa comum – 1 março 2018
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Mulher-maravilha: Amazona, Heroína, Ícone Capa dura – 27 agosto 2019
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PROFESSOR MARSTON E AS MULHERES-MARAVILHAS
https://www.youtube.com/watch?v=m7DTTRDuLh4
“Love Slaves and Wonder Women: Radical Feminism and Social Reform in the Psychology of William Moulton Marston,” Feminist Philosophy Quarterly, 2.1 (2016)
https://ir.lib.uwo.ca/fpq/vol2/iss1/1/
A Biography of William Marston, Creator of Wonder Woman (Web Exclusive, Extended Version)
https://www.marintheatre.org/production ... arston-bio
Wonder Woman: A psychologist's creation
https://www.apa.org/monitor/2008/12/wonder-woman
Wonder Woman’s Secret Roots in Psychological Science
https://www.psychologicalscience.org/pu ... ience.html
The Surprising Origin Story of Wonder Woman
https://www.smithsonianmag.com/arts-cul ... 180952710/
Five surprising secrets behind the creation of Wonder Woman
https://www.bbc.co.uk/programmes/articl ... nder-woman
Mulher-Maravilha: feminista desde o princípio
https://veja.abril.com.br/especiais/mul ... principio/
Simone de Beauvoir and Sexual Symbolism in Wonder Woman (2017)
https://furinchime.com/2018/07/15/simon ... der-woman/
Comissão da ONU sobre a Situação das Mulheres
http://www.onumulheres.org.br/planeta5050-2030/csw/
ONU: 25% das mulheres a partir de 15 anos são vítimas da violência de gênero
https://news.un.org/pt/story/2021/03/1743912
Uma em cada quatro mulheres foi vítima de algum tipo de violência na pandemia no Brasil, aponta pesquisa
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/notic ... olha.ghtml
VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO E RAÇA NO BRASIL (2021)
https://www.violenciapolitica.org/
Wonder Woman Spin Transformation and Lasso - First Season
https://www.youtube.com/watch?v=YVLJcBsD__E
Wonder Woman Trailer - Lynda Carter Edition
https://www.youtube.com/watch?v=g_b_mu3jQJo
Wonder Woman Lynda Carter Has Something To Say To Gal Gadot
https://www.youtube.com/watch?v=5aDpUbFjneA